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Il bicchiere mezzo pieno: le relazioni oltre la pandemia

 
 

As relações no período do Coronavírus: como melhorá-las, apesar do isolamento, do medo e da mediação tecnológica? O que essa experiência pode nos ensinar? Perguntamos isso a Giovanna Cosenza, professora de Filosofia e Teoria da Linguagem na Universidade de Bolonha.

Estamos vivendo um momento dramático para a humanidade, cujas consequências ainda precisam ser totalmente compreendidas. A tecnologia tornou-se fundamental, ainda mais do que antes, para se comunicar, para encontrar forças para resistir ao isolamento e ao medo. Em sua opinião, isso é um caminho sem volta?

Giovanna Cosenza: «Vamos partir de uma premissa: os seres humanos são feitos para se tocarem, para se abraçarem, para se perceberem, não para se olharem através da tela, essa é a nossa natureza intrínseca. Algumas pessoas e alguns povos são mais espontâneos nisso, outros são menos espontâneos, mas é fato que, para estabelecer relações saudáveis ​​entre os seres humanos, é necessário olhar-se nos olhos. Podem acontecer brigas, discussões, mas a base permanece aquela, pois olhando-nos nos olhos permanecemos próximos, mesmo nas diferenças, mesmo quando as diversas culturas se acostumam a distâncias de intensidades diferentes.

Agora, e até mesmo antes da Covid-19, estamos passando por um teste severo dessa capacidade relacional que, repito, deve ser natural em nós. Há pessoas que escapam de relacionamentos, não conseguem olhar nos olhos, não conseguem se expor; em muitos jovens, há o risco de se acostumar a evitar esse aspecto do relacionamento, especialmente em um momento em que estamos sendo “filtrados” pela rede e pelas tecnologias; a longo prazo, isso só pode inocular dentro de nós um mal-estar e nos distanciar ainda mais, pois nos acostumamos a algo para o qual não somos construídos como seres humanos. Mas precisamos transformar em virtude a necessidade: não demonizar nada, ao contrário, valorizar os recursos tecnológicos, mas sem nunca esquecer que nossa verdadeira origem e a essência do bem-estar está ali, no autêntico relacionamento. Quando tudo acabar, teremos que nos lembrar disso.»

Quando tudo acabar… Mas enquanto isso?

GC: «Aprendemos a usar esses meios para valorizar os relacionamentos. Nunca, como agora, estamos imersos em videoconferências, em todos os tipos de chamadas, com um pouco de confusão entre a vida privada e a vida profissional: as pessoas entram em sua casa a qualquer momento, veem o que você vive, às vezes até os membros de sua família que aparecem como plano de fundo das chamadas, e a cada trinta segundos há uma distração que não é funcional para o relacionamento que você está vivendo. Imersos nessa conexão contínua e confusa, somos atraídos por mil coisas enquanto nos comunicamos com alguém. Mas não, precisamos encontrar um limite, uma ordem, recuperando a atenção para o relacionamento que estamos vivendo. Por exemplo, eu me isolo: se estou conversando com um aluno meu, procuro um espaço no qual nem o filho nem o marido possam entrar, pelo menos por esses 10 minutos, e me dedico totalmente ao meu aluno. Se eu explico bem ao meu filho que a mamãe está trabalhando, ele entende, não se sente negligenciado, eu me dedico totalmente ao trabalho e depois estarei inteira para o meu filho. Nem todos podem fazer isso, há situações de grande inconveniência em que é impossível encontrar o espaço próprio, mas mesmo nesse caso é importante aprender a se dedicar a uma pessoa de cada vez, completamente, a uma coisa de cada vez. Desse modo, recobro a paz, recobro o sentido de um relacionamento, o sentido de uma vida que é pública e é privada, com um “limite” saudável que aumenta em nós o senso de cuidado de para com o outro. Somente assim podemos começar a salvar os relacionamentos.»

Paradoxalmente, alguém poderia afirmar que é aprendendo a ficar sozinho que os relacionamentos são valorizados?

GC: «Sim, se você souber estar em pé sozinho, se souber enfrentar a solidão com tudo o que isso implica, não estará se apoiando nos relacionamentos, não os usa de forma utilitarista, ao invés, você se relaciona de maneira saudável, recebendo certamente, mas também com a capacidade de doar. Vamos esclarecer: não é que esses problemas não existissem antes, mas a emergência da Covid os acentuou. É por isso que precisamos recuperar a atenção pelo outro, que teremos que levar conosco também depois. Não vamos ceder ao descuido.»

Como enfrentar o medo, mesmo no futuro, com a arma da palavra?

GC: «O medo não pode ser cancelado, tem de ser assumido, reconhecido. O medo com todas as suas nuances de tensão, de ansiedade. Enquanto a angústia ocorre por algo indefinido, que não sabemos como identificar, há medo por algo concreto. A primeira coisa é reconhecer e distinguir os dois, e usar a palavra para expressar a emoção e processá-la com os outros. Não é fácil, porque seja na esfera privada, seja na esfera pública falamos sobre coisas; por exemplo, os números, neste período, substituíram a realidade, mas os números podem ser interpretados de mil maneiras. Há quem olhe mais para os mortos, há quem olhe mais para os que se curaram, mas por trás dos números há pessoas, há dinâmicas. Cada um de nós deve aprender a compartilhar mais essas dinâmicas que podem ser lidas por trás do número, discuti-las com outras pessoas, para exorcizar o medo, acalmar a raiva, mas também para ver as coisas de maneira mais objetiva.»

Começamos a ver de modo objetivo também as palavras; a senhora é uma especialista em palavras: “Tudo vai ficar bem” é o slogan que nos acompanhou nestas semanas. Para muitas pessoas, no entanto, não correu tudo bem, e não sabemos o que nos espera no futuro…

GC: «“Tudo vai ficar bem” não nega algo que deu errado. Perdi um grande amigo antes da pandemia, e as mortes são sempre de pessoas, não de números. Vivi toda a doença dele, que sempre foi grave desde que foi descoberta; e eu lhe dizia constantemente “tudo vai ficar bem”. Entre nós, pessoas próximas, alternávamos essa atitude de positividade. Minha ideia era “não serão três meses, mas talvez três anos”. Outros amigos diziam: “tudo está indo de mal a pior”, “eu não o reconheço mais”. O amigo realmente morreu, então, considerando este modo de ver, eu é que estava enganada. Mas para dizer a verdade, faria tudo de novo. Acredito que, mesmo nos últimos dois meses, foi certo, para ele e para mim, ter uma atitude construtiva, que não negava a gravidade da situação, porque isso nos permitiu experimentar melhor esse drama. Sou levada sempre a dizer “tudo vai ficar bem”, sem negar a morte e o desespero do que aconteceu e do que está acontecendo. Porque, ao dizer as coisas, alimentamos uma confiança, a confiança no “nós”. Sozinhos não chegamos a lugar nenhum, e o relacionamento autêntico deve ser capaz de demonstrar isso. Não somos autossuficientes, nem mesmo com toda a tecnologia deste mundo. Se entendermos isso, a palavra encontra a verdade, mesmo essas três palavras “Tudo vai ficar bem”. É por isso que digo que sorrir até o fim com esse meu amigo foi a melhor maneira de acompanhá-lo, porque de fato eu acreditava, não estava fingindo. E realmente faria tudo de novo.»

Existe o risco de cair no otimismo fácil?

GC: «Um dia fui passear e compartilhei com minhas amigas no whatsapp a imagem de dois rapazes que estavam ensaiando uma coreografia, no escuro, a distância, com aparelhos de som que ainda se usam na cultura rap: dançavam sem volume alto, muitos respeitosos com a situação, sozinhos. Para mim, foi a melhor imagem para dizer “tudo vai ficar bem”. Para outras pessoas, como essas minhas amigas, a mesma imagem representava uma coisa muito ruim, porque viam mais a cidade vazia do que os dois jovens dançarinos. Veja, não é otimismo, é diversidade de ponto de vista em relação a uma situação, é ver o copo meio cheio, comunicar isso ao outro talvez para ajudá-lo, mas depois deixá-lo livre também para vê-lo meio vazio, se ele quiser; por outro lado, a vida é essa, enquanto uma criança nasce outra pessoa morre…».

Essa experiência realmente nos ajudará a ver mais a “floresta em crescimento”?

GC: «É o trabalho que fazemos todos os dias, é o que torna linda a nossa realidade, seja ela qual for. Certamente, neste período, vimos muitas pessoas morrerem, vemos a morte frente a frente, o que é cada vez mais um tabu. Veja, esse compromisso também pode restaurar uma certa pacificação com a morte, dando um sabor diferente à vida que temos que enfrentar todos os dias nas pequenas coisas. Se não entendermos a morte, não compreenderemos a vida; e se essa pandemia nos ajudasse a recuperar uma atitude positiva em relação à nossa realidade, ajudaria a mudança de mentalidade tão necessária para enfrentar esTa fase 2.»

Nas últimas semanas, muitos escreveram que o Coronavírus pode levar a redescobrir a solidariedade, a proximidade, enfim, a fraternidade entre pessoas e povos. Mas é realmente assim?

GC: «Espero que sim, depende de muitos fatores, também do tempo disponível. É preciso um tempo suficientemente longo dentro de uma experiência para extrair dela um sentido. O tempo de convivência com o vírus parece ser assim, e acredito que a solidariedade que pudemos ter de um lado, e que talvez de outro lado também perdemos muito devido ao isolamento, pode nos levar a redescobrir o valor do que temos em nossas mãos, para uma retomada gradual de uma ingerência positiva em nossas vidas».


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