{"id":70920,"date":"2020-05-22T20:38:11","date_gmt":"2020-05-22T18:38:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/economy-work\/cinco-anos-atras-a-laudato-si\/"},"modified":"2020-05-22T20:38:11","modified_gmt":"2020-05-22T18:38:11","slug":"cinco-anos-atras-a-laudato-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/pt-br\/economia-trabalho\/cinco-anos-atras-a-laudato-si\/","title":{"rendered":"Cinco a\u00f1os atr\u00e1s, a Laudato S\u00ec"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 24 de maio de 2015, foi publicada a <\/em>Laudato s\u00ec<em>, enc\u00edclica do Papa Francisco a respeito dos cuidados com a &#8220;casa comum&#8221;, a cria\u00e7\u00e3o. Um t\u00edtulo retirado do C\u00e2ntico das Criaturas de S\u00e3o Francisco de Assis. Pedimos a Frei Matteo Sito, Padre Provincial da Ordem dos Frades Capuchinhos Menores da \u00dambria, que fizesse uma an\u00e1lise sobre esta comemora\u00e7\u00e3o \u00e0 luz do que est\u00e1 acontecendo com a epidemia da Covid-19. Publicamos o texto extra\u00eddo da entrevista.<\/em><\/p>\n<p><strong>O Papa Francisco disse que <em>Laudato s\u00ec<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma enc\u00edclica verde, \u00e9 uma enc\u00edclica social. O que \u00e9 a <em>Laudato s\u00ec<\/em>?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Frei Matteo Siro<\/strong>: \u00abDefinir um documento como este com algumas palavras \u00e9 um eufemismo e um pouco mortificante. A <em>Laudato s\u00ec <\/em>possui em si mesma um valor ecol\u00f3gico, mas o Papa a define como um documento social precisamente porque o tema da ecologia n\u00e3o pode ser separado do tema das rela\u00e7\u00f5es humanas e do impacto do argumento ecol\u00f3gico nas rela\u00e7\u00f5es humanas, na vida concreta das pessoas. Estamos vivenciando isso nestes momentos em que, devido a uma epidemia, n\u00f3s nos sentimos um pouco restritos em nossos relacionamentos, os quais mudaram totalmente. E todos sentimos saudade de um retorno \u00e0 socialidade, temos necessidade de um belo encontro, como acontece na vida normal. Ent\u00e3o, eu diria que a <em>Laudato s\u00ec<\/em> \u00e9 um documento sobre humanismo integral, pois o homem est\u00e1 dentro de um sistema muito mais amplo que, pela f\u00e9, sabemos que emana das m\u00e3os do Criador, e o homem \u00e9 seu guardi\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o os sinais de esperan\u00e7a que o senhor v\u00ea ap\u00f3s cinco anos da publica\u00e7\u00e3o, e o que h\u00e1 a ser feito para atuar plenamente esse documento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abAntes da <em>Laudato s\u00ec<\/em>, os argumentos ecol\u00f3gicos e os argumentos do homem inserido no interior de uma &#8220;casa comum&#8221;, como \u00e9 chamada, estavam um pouco distantes da vida cotidiana, n\u00e3o tocava a vida concreta das pessoas. Um dos frutos desse documento \u00e9 o fato de que a Igreja, entendida como uma comunidade de fi\u00e9is, se esfor\u00e7a para fazer ressoar um grito, pois a nossa casa comum est\u00e1 em perigo, e isso traz \u00e0 luz os problemas que s\u00f3 ser\u00e3o resolvidos a partir da nossa vida cotidiana. <em>Laudato s\u00ec<\/em> tornou essas quest\u00f5es mais acess\u00edveis. Inclusive em n\u00edvel institucional est\u00e3o sendo reelaboradas de alguma forma, est\u00e3o sendo sentidas como algo urgente. Provavelmente, por tr\u00e1s existe uma ideia do homem que precisa ser mudada. Se a ideia de homem, de humanidade n\u00e3o mudar, provavelmente n\u00e3o seremos capazes de fazer uma passagem correta e completa; o homem que \u00e9 precisamente guardi\u00e3o da Cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 guardi\u00e3o e herdeiro, n\u00e3o \u00e9 patr\u00e3o; o bem comum n\u00e3o pode prescindir de algo que seja superior ao pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p>Tenho que dizer que muitos sistemas econ\u00f4micos e governamentais se escondem diante dessa urg\u00eancia, e provavelmente se escondem porque \u00e9 conveniente manter o homem subjugado a esse tipo de mentalidade, sem faz\u00ea-lo redescobrir a beleza do potencial que tem, a servi\u00e7o do bem comum dentro de uma casa comum. Na enc\u00edclica, o Papa se refere \u00e0 tecnocracia e \u00e0 economia, que infelizmente ainda dominam o conceito de homem como pessoa, como rela\u00e7\u00e3o. Este ser\u00e1 um passo que talvez levar\u00e1 muito tempo para ser efetuado. As premissas est\u00e3o todas a\u00ed, ent\u00e3o depende de n\u00f3s.\u00bb<\/p>\n<p><strong>Com rela\u00e7\u00e3o a esses problemas que o senhor colocou, da primazia da tecnocracia, da busca pelo poder econ\u00f4mico em detrimento da vida das pessoas, a pandemia, paradoxalmente, pode nos ajudar a redescobrir a centralidade da pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abObservemos a epidemia com um olhar de f\u00e9. Precisamos saber extrair algo de bom para n\u00f3s, para os nossos relacionamentos, para o que somos, para a nossa vida enquanto pessoas. E para ser sincero, acredito que a pandemia, que infelizmente causou muitas mortes e sofrimentos, despertou essa ideia \u2013 bem delineada pela <em>Laudato s\u00ec<\/em> \u2013 de que somos todos \u2018vizinhos de casa\u2019. Embora o mundo seja enorme em suas propor\u00e7\u00f5es, estamos ligados por um \u00fanico destino. Isso nos ensina muito a cuidarmos uns dos outros, pois algo que est\u00e1 acontecendo longe de n\u00f3s n\u00e3o pode ser algo que n\u00e3o nos diga respeito pessoalmente. A China, t\u00e3o longe da It\u00e1lia, tornou-se muito pr\u00f3xima. Assim como o Brasil, onde est\u00e3o os nossos mission\u00e1rios, tornou-se muito pr\u00f3ximo, porque agora eles est\u00e3o experimentando aquilo que vivemos h\u00e1 um m\u00eas e meio. Se continuarmos a enfrentar uma situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia desse tipo pensando mais em n\u00fameros do que em pessoas \u2013 e n\u00e3o de acordo com a vis\u00e3o correta, isto \u00e9, de que os n\u00fameros est\u00e3o a servi\u00e7o das pessoas, e n\u00e3o o contr\u00e1rio \u2013, teremos perdido uma oportunidade, mas certamente emergiremos mais conscientes de quem somos, da beleza da pessoa e do seu valor imprescind\u00edvel.\u00bb<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea mencionou o Brasil. N\u00e3o posso deixar de me referir \u00e0 Miss\u00e3o na Amaz\u00f4nia, no alto Solim\u00f5es, onde sua Prov\u00edncia est\u00e1 presente h\u00e1 pelo menos 110 anos. Como eles est\u00e3o vivendo l\u00e1 este momento?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abOs confrades, com quem me comunico quase diariamente, mencionam situa\u00e7\u00f5es muito cr\u00edticas na grande cidade de Manaus, com uma s\u00e9rie de problemas sociais que s\u00e3o claramente muito complicados em compara\u00e7\u00e3o com a It\u00e1lia, ent\u00e3o imagine como pode ser a emerg\u00eancia. At\u00e9 o momento, tem sido relativamente reduzida, mas h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o pela popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena que n\u00f3s assistimos pastoralmente nas \u00e1reas mais internas. Como os \u00edndios n\u00e3o t\u00eam perfil imunol\u00f3gico para se defender de uma epidemia desse tipo, a entrada do v\u00edrus em um contexto ind\u00edgena seria uma trag\u00e9dia, e at\u00e9 os pr\u00f3prios mission\u00e1rios s\u00e3o cuidadosos. Infelizmente, est\u00e3o um pouco mais distantes em n\u00edvel pastoral, pelo menos dos povos ind\u00edgenas, porque eles n\u00e3o devem e n\u00e3o podem ir \u00e0 floresta a fim de evitar o cont\u00e1gio. Portanto, a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena est\u00e1 protegida de alguma forma. A trag\u00e9dia ocorre nas grandes cidades onde, infelizmente, n\u00e3o h\u00e1 assist\u00eancia m\u00e9dica ou, se h\u00e1, \u00e9 muito deficit\u00e1ria; os confrades me parecem estar bem, est\u00e3o motivados, continuam sua miss\u00e3o, enquanto vivem em um clima de alerta. Eles sabem que est\u00e3o arriscando a vida, mas isso faz parte da miss\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p><strong>A Covid-19 e o ensinamento da <em>Laudato s\u00ec<\/em> nos levam a nunca considerar como garantido o clamor do povo, mesmo daqueles que parecem mais distantes de n\u00f3s?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abN\u00f3s realmente sentimos isso tamb\u00e9m, como se nos un\u00edssemos \u00e0quele grito. Geralmente se diz que apreciamos as coisas quando n\u00e3o as possu\u00edmos mais, e agora apreciamos as realidades que t\u00ednhamos em m\u00e3os anteriormente, e aqueles que n\u00e3o as possu\u00edam pareciam viver em outro mundo! Todos vivemos no mesmo mundo, e a abund\u00e2ncia de que desfrutamos n\u00e3o nos d\u00e1 a justificativa para n\u00e3o abrirmos nossos ouvidos e olhos para as necessidades dos outros. Precisamos trabalhar duro para que todos os povos tamb\u00e9m possam ter acesso ao que podemos usufruir normalmente.\u00bb<\/p>\n<p><strong>No final, a <em>Laudato s\u00ec<\/em> nos ensinou todos esses anos a colocar novamente no centro o relacionamento com a pessoa em todas as suas necessidades?<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abCom certeza, sim. O Papa nos deu uma grande li\u00e7\u00e3o com esse documento. Recuperar a vis\u00e3o do homem feito \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus: talvez digamos isso como se fosse uma parlenda, mas n\u00e3o percebemos o peso que essa afirma\u00e7\u00e3o tem. E saber que Deus, ao menos para os crist\u00e3os, \u00e9 rela\u00e7\u00e3o, significa que o homem n\u00e3o pode sobreviver sem um relacionamento correto. O homem est\u00e1 no centro, saiu das m\u00e3os de Deus por excesso de amor, h\u00e1 um antropocentrismo que \u00e9 aben\u00e7oado, mas certamente h\u00e1 outro que n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o: quando o homem pretende se esquecer de ser filho; filho e tamb\u00e9m herdeiro desta terra.\u00bb<\/p>\n<p><strong>O Papa Francisco pede uma convers\u00e3o concreta, no comportamento di\u00e1rio&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>FMS<\/strong>: \u00abQuando falamos de coisas espirituais, de valores, pensamos nisso como algo que diz respeito apenas \u00e0 nossa interioridade. Ao inv\u00e9s, elas envolvem a vida concreta, iniciando pela manh\u00e3, quando me levanto e come\u00e7o a fazer as coisas do dia a dia. O Papa nos impele a dizer: &#8220;vejam que espiritual significa concreto&#8221;\u00bb.<\/p>\n<p><div class=\"cookieconsent-optout-marketing\">\n                        <a href=\"javascript:Cookiebot.renew()\" style=\"background: url(https:\/\/www.unitedworldproject.org\/wp-content\/plugins\/yt-placeholder-cookiebot\/assets\/placeholder.jpg) no-repeat center center \/ cover; aspect-ratio: 1 \/ 0.48; width: 100%; display: block; margin: 20px 0; position: relative; background-size: cover; background-position: center;\">\n                            <span style=\"position: absolute; bottom: 20px; width: 100%; padding: 0 5%; text-align: center; box-sizing: border-box;\">Para visualizar este v\u00eddeo, \u00e9 necess\u00e1rio ativar todos os cookies<\/span>\n                        <\/a>\n                   <\/div><iframe loading=\"lazy\" title=\"Export Intervista a Mattia Siro\" width=\"500\" height=\"281\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/trMvq1s6SjI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 24 de maio de 2015, foi publicada a Laudato s\u00ec, enc\u00edclica do Papa Francisco a respeito dos cuidados com a &#8220;casa comum&#8221;, a cria\u00e7\u00e3o. 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