{"id":73627,"date":"2023-09-08T15:13:29","date_gmt":"2023-09-08T13:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/economy-work\/viver-na-fronteira-e-olhar-para-alem-de-si-mesmo\/"},"modified":"2023-09-08T15:13:29","modified_gmt":"2023-09-08T13:13:29","slug":"viver-na-fronteira-e-olhar-para-alem-de-si-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/pt-br\/economia-trabalho\/viver-na-fronteira-e-olhar-para-alem-de-si-mesmo\/","title":{"rendered":"Viver na fronteira \u00e9 olhar para al\u00e9m de si mesmo&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><em>Ron Sibugan vive na fronteira entre El Paso, Texas, e Ciudad Ju\u00e1rez, no M\u00e9xico. Estar na fronteira entre migrantes da Am\u00e9rica Central, \u00c1frica, R\u00fassia e Turquia mudou sua perspectiva sobre a migra\u00e7\u00e3o e sobre si mesmo.<\/em><\/p>\n<p>A fronteira fica a trinta minutos a p\u00e9, a apenas cinco quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Ele a observa da janela do t\u00e9rreo. A essa altura, ele conhece bem o rugido incessante dos caminh\u00f5es esperando para atravess\u00e1-la. Ron Sibugan, um mission\u00e1rio assuncionista, vive na fronteira, onde El Paso, no Texas, e Ciudad Ju\u00e1rez, no M\u00e9xico, olham-se de perto: duas cidades g\u00eameas separadas por um rio, por uma rodovia e por um muro de zinco. Seis pontes as conectam, mas n\u00e3o s\u00e3o suficientes para consertar o racha econ\u00f4mico e social que colocou as duas cidades na vanguarda da trag\u00e9dia da migra\u00e7\u00e3o, trag\u00e9dia de milhares de pessoas que fogem com poucos sonhos nas mochilas. Conheci Ron enquanto ele cozinhava para sua comunidade, e a entrevista come\u00e7ou em frente ao fog\u00e3o, com o delicioso aroma de <em>chicken adobo<\/em>, uma receita filipina.<\/p>\n<p><strong>Por que o senhor decidiu se mudar para a fronteira?<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 tr\u00eas anos atr\u00e1s eu morava em Boston, no Centro assuncionista, onde havia todo o conforto: aquecimento, ar-condicionado&#8230; Em minha alma, por\u00e9m, sentia uma profunda inquieta\u00e7\u00e3o. A minha congrega\u00e7\u00e3o, desafiada pelas not\u00edcias sobre os migrantes, iniciou um processo de discernimento sobre nossa miss\u00e3o, e nos mudamos para c\u00e1, para a par\u00f3quia S\u00e3o Francisco Xavier, em El Paso. Esta cidade fronteiri\u00e7a tamb\u00e9m me pareceu o lugar certo para questionar minha identidade. Eu estava esperando um sinal l\u00e1 de cima, e ele chegou justamente aqui, em pouco tempo&#8230;<\/p>\n<p><strong>A que sinal se refere?<\/strong><\/p>\n<p>Eu estava almo\u00e7ando com outros dois membros da comunidade. Em certo momento, come\u00e7ou uma goteira sobre nossas cabe\u00e7as. \u201cO banheiro est\u00e1 obstru\u00eddo de novo\u201d, eu disse. Peguei o telefone para chamar um encanador e, logo em seguida, desceu um jato de \u00e1gua potente do andar de cima&#8230; do forro. A\u00ed est\u00e1, meu sinal! Naquele momento engra\u00e7ado percebi que aquela casa paroquial arruinada seria minha nova casa. Uma casa que, a partir de 2020, acolheu mais de 6.000 refugiados, a maioria da Am\u00e9rica Central, R\u00fassia, Turquia e \u00c1frica.<\/p>\n<p><strong>O que significa viver na fronteira?<\/strong><\/p>\n<p>Significa lutar diariamente contra a sensa\u00e7\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o. Aquele muro de metal t\u00e3o pr\u00f3ximo tem a tarefa de separar de mim os estrangeiros e, ao inv\u00e9s, me faz ver as coisas de outro ponto de vista, porque me faz ver em seus rostos a face de Deus. Eles s\u00e3o a minha ora\u00e7\u00e3o di\u00e1ria. Esses seres humanos s\u00e3o rotulados como terroristas, exploradores, traficantes de drogas antes mesmo de poderem contar sua hist\u00f3ria. E a humanidade deles, quem v\u00ea? Olhando para eles percebemos que nenhuma fronteira, nenhuma barreira nos separa. Seja qual for o seu pa\u00eds de origem, seja ele um aliado ou um inimigo, eu desejo apenas restaurar a sua dignidade depois de todo esse sofrimento, depois dos maus tratos e da pris\u00e3o que sofreram.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea j\u00e1 pensou duas vezes sobre sua escolha de viver na fronteira?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. No in\u00edcio, passamos por momentos dif\u00edceis. Era inverno e n\u00e3o havia aquecimento. Sent\u00edamos muito frio. Os canos estavam vazando e as paredes estavam cheias de mofo. Eu queria saber se est\u00e1vamos no lugar certo. Naquele per\u00edodo de sofrimento, o padre Peter, outro membro da comunidade, me ajudou e me incentivou muito. Experimentando a presen\u00e7a e a consola\u00e7\u00e3o de um irm\u00e3o, senti-me pronto para levar consolo e para testemunhar que Deus est\u00e1 presente. Ele n\u00e3o nos abandona nunca, por maiores que sejam as dificuldades.<\/p>\n<p><strong>O senhor se lembra de algum momento em que mudou seu ponto de vista?<\/strong><\/p>\n<p>A fronteira nos ensina a olhar al\u00e9m de si mesmo, al\u00e9m de qualquer barreira social e pessoal, e a conviver com a incerteza. Eu me considerava um benfeitor desses migrantes, mas em vez disso fui eu que recebi muitos dons. Um dos h\u00f3spedes, por exemplo, pintou uma das nossas paredes; outra pessoa nos deu um envelope com duzentos d\u00f3lares para usar para os rec\u00e9m-chegados; outro, um dia, limpou o ch\u00e3o da reitoria. Como religioso, eu achava que sabia o que era f\u00e9, mas os migrantes me permitiram toc\u00e1-la com as m\u00e3os. Eles perderam tudo. Sofreram torturas, mas repetem: \u201cSem f\u00e9 eu jamais teria aguentado\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ron Sibugan vive na fronteira entre El Paso, Texas, e Ciudad Ju\u00e1rez, no M\u00e9xico. Estar na fronteira entre migrantes da Am\u00e9rica Central, \u00c1frica, R\u00fassia e Turquia mudou sua perspectiva sobre a migra\u00e7\u00e3o e sobre si mesmo. A fronteira fica a trinta minutos a p\u00e9, a apenas cinco quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. 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