{"id":73744,"date":"2024-01-12T08:00:26","date_gmt":"2024-01-12T07:00:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/economy-work\/esperanca-comunidade-e-recomeco-em-um-canto-remoto-da-inglaterra\/"},"modified":"2025-11-26T16:19:32","modified_gmt":"2025-11-26T15:19:32","slug":"esperanca-comunidade-e-recomeco-em-um-canto-remoto-da-inglaterra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/pt-br\/economia-trabalho\/esperanca-comunidade-e-recomeco-em-um-canto-remoto-da-inglaterra\/","title":{"rendered":"Esperan\u00e7a, comunidade e recome\u00e7o em um canto remoto da Inglaterra"},"content":{"rendered":"<p><em>H\u00e1 muitos temas fortes, t\u00e3o simples quanto poderoso, no novo filme de Ken Loach: <\/em>The Old Oak<em> (O Velho Carvalho), apresentado no Festival de Cannes. Fala sobre trabalho, migra\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia do encontro, da troca e de estar juntos, para formar a for\u00e7a de uma comunidade. <\/em><\/p>\n<p>O que lampeja \u00e9 a capacidade de T.J. Ballantyne de recome\u00e7ar no meio do sofrimento: um homem que chegou ao fundo do po\u00e7o e correu o risco at\u00e9 de bater as botas. A primeira vez foi quando viu morrer sua comunidade de mineradores, no Norte da Inglaterra, ap\u00f3s perder um duelo na d\u00e9cada de 1980 contra a Thatcher. A segunda, como consequ\u00eancia das feridas dessa desilus\u00e3o, quando deixou a esposa sofrer, at\u00e9 a perder. A terceira vez quando, ainda debilitado pelo ac\u00famulo de sofrimento, pensou em acabar com tudo, mas foi impedido pelo destino ou talvez por algo maior.<\/p>\n<p>T.J. renasceu naquele dia, ou pelo menos continuou a respirar, gra\u00e7as a um c\u00e3ozinho que veio ao seu encontro no momento mais sombrio.\u00a0O nome dele \u00e9 Marra, que entre os mineradores significa companheiro, mais do que amigo, aquele que protege suas costas, que pode salvar sua vida. Aquele animalzinho se tornou uma vida a ser amada, a ser defendida, algu\u00e9m por quem viver, um ponto de apoio para recome\u00e7ar todos os dias ou, ao menos, o est\u00edmulo para sair da cama pela manh\u00e3, na cidade de T.J. Ballantyne, agonizante, por n\u00e3o conter a ess\u00eancia humana chamada socialidade.<\/p>\n<p>T.J. passa os dias em seu pub, entre fotos em preto e branco dos mineiros ainda unidos e fortes, e um punhado de clientes sombrios e revoltados com a extin\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio e com a pobreza que n\u00e3o \u00e9 apenas econ\u00f4mica, mais ignorantes e degradados do que verdadeiros racistas, mas n\u00e3o por isso inofensivos e construtores do bem.<\/p>\n<p>O local, t\u00e3o negligenciado quanto seu dono, \u00e9 chamado de <em>The Old Oak<\/em>: o velho carvalho que d\u00e1 t\u00edtulo ao filme. Uma \u00e1rvore forte como \u00e9 o pr\u00f3prio T.J., de p\u00e9 na tempestade, nas esta\u00e7\u00f5es duras e frias, marcado, plantado e firme at\u00e9 que a pr\u00f3pria vida, um dia, em nosso tempo de guerras e migra\u00e7\u00f5es, oferece a ele uma nova oportunidade de recome\u00e7ar.<\/p>\n<p>Essa oportunidade passa por Yara: uma jovem s\u00edria que chegou \u00e0 aldeia decadente com outras pessoas pobres que fugiram das bombas, da viol\u00eancia e da morte. Ela aprendeu ingl\u00eas colaborando com a ajuda estrangeira, em sua terra atormentada, e tem paix\u00e3o e talento para a fotografia. Ela tem uma fam\u00edlia numerosa e fr\u00e1gil com ela, naquele recanto frio da Europa perto de New Castle, mas o pai n\u00e3o est\u00e1 com ela: talvez esteja morto, talvez mantido prisioneiro nos terr\u00edveis c\u00e1rceres s\u00edrios.<\/p>\n<p>T.J. v\u00ea algo naquela jovem carente. Ele intui que, a partir desse sofrimento pessoal e coletivo de quem foi arrancado do seu lugar de origem, pode nascer uma comunidade. E ele mesmo pode renascer, em parte at\u00e9 mesmo se redimindo dos erros do desespero. T.J. n\u00e3o fala muito, mas faz o poss\u00edvel para que a c\u00e2mera fotogr\u00e1fica de Yara, destru\u00edda por um vadio do local, bom apenas em desperdi\u00e7ar seu dinheiro no bar, seja consertada.<\/p>\n<p>Ele coloca sua van \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para levar cestas b\u00e1sicas aos s\u00edrios espalhados nas casas da aldeia, e vai reabrir a sala interna do bar, fechada desde os long\u00ednquos dias quando a comunidade mineira ainda estava viva, quando comer juntos n\u00e3o era apenas se alimentar, mas nutrir-se mutuamente. Abre novamente as portas para preparar almo\u00e7os a serem compartilhados entre os locais e os estrangeiros.<\/p>\n<p>Naquela por\u00e7\u00e3o urbana ressequida pela Hist\u00f3ria, brota novamente o murm\u00fario f\u00e9rtil do encontro, \u00e9 reavivada a natureza humana do di\u00e1logo e da partilha, gra\u00e7as \u00e0quela esperan\u00e7a de que Yara fala em um mon\u00f3logo comovente no final, dentro de uma catedral de beleza antiga e tocante.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m h\u00e1 ervas daninhas no meio do trigo metaf\u00f3rico do filme: as ervas daninhas banais e nocivas da inveja, do medo, do cansa\u00e7o e do fechamento, para destruir, ou talvez apenas para tentar destruir, essa harmonia em processo de ressurrei\u00e7\u00e3o, esse renascimento mais forte do que os anteriores.<\/p>\n<p>O final de <em>The Old Oak<\/em> fica suspenso: h\u00e1 novamente sofrimento, mas n\u00e3o \u00e9 certeza de que haver\u00e1 derrota, parece nos dizer o mestre Ken Loach: oitenta e sete anos em \u00f3tima forma, de bra\u00e7os dados com o seu fiel roteirista Paul Laverty. Ele nos diz isso com esse filme linear, enxuto, mas n\u00e3o esquem\u00e1tico ou privo de emo\u00e7\u00e3o. T\u00e3o simples quanto cheio de ess\u00eancia. De modo geral, poderoso. Est\u00e1 repleto de temas fortes e bem harmonizados, como o trabalho dos humildes explorados e abandonados, como os migrantes sem nada, como a import\u00e2ncia de estarmos juntos, as feridas comuns que se curam reciprocamente com uma nova unidade. Como a solidariedade, que pressup\u00f5e uma rela\u00e7\u00e3o igualit\u00e1ria, de troca edificante.<\/p>\n<p>Por isso, T.J. oferece aquele seu ambiente, depois de t\u00ea-lo negado aos frequentadores de sempre, atraindo a ira deles n\u00e3o apenas teoricamente. Faz isso porque os primeiros o teriam usado para dividir, extinguir, destruir um encontro potencialmente salv\u00edfico. Os segundos, por outro lado, o preenchem do desejo de construir o futuro. Com aquela esperan\u00e7a que pode ser obscena para alguns, diz Yara na igreja, e que se \u201c\u00e0s vezes pode provocar dor&#8221;, \u00e9 tamb\u00e9m aquela pela qual &#8220;se eu parar de esperar, meu cora\u00e7\u00e3o para de bater\u201d.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a est\u00e1 l\u00e1 em <em>The Old Oak<\/em>, exala da jovem Yara e do maduro T.J. Ela ilumina e perfuma o filme, mas n\u00e3o est\u00e1 sozinha: ela tem que conviver com a fragilidade humana que leva a \u201cculpar as pessoas pobres, que est\u00e3o abaixo de n\u00f3s\u201d, diz T.J. a um velho amigo, seu ex-colega de escola e filho de um mineiro, como ele. Diz isso depois dele o ter tra\u00eddo e boicotado, por ser v\u00edtima do seu triste destino. Em uma das \u00faltimas sequ\u00eancias do filme, n\u00f3s o encontramos, no entanto, no lugar onde a incipiente comunidade acaba de se encontrar em um momento de sofrimento compartilhado.<\/p>\n<p>Pode ser, ent\u00e3o, que tamb\u00e9m este homem sinta dentro de si, imediatamente ap\u00f3s os cr\u00e9ditos de <em>O Velho Carvalho<\/em>, o imenso prazer de recome\u00e7ar.<\/p>\n<figure id=\"attachment_49172\" aria-describedby=\"caption-attachment-49172\" style=\"width: 1800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-49172\" src=\"https:\/\/www.unitedworldproject.org\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/theoldoak_luckyred_4.jpg\" alt=\"theoldoak_luckyred_4\" width=\"1800\" height=\"1199\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-49172\" class=\"wp-caption-text\">theoldoak_luckyred_4<\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos temas fortes, t\u00e3o simples quanto poderoso, no novo filme de Ken Loach: The Old Oak (O Velho Carvalho), apresentado no Festival de Cannes. 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