Da Colômbia à Hungria: germes de uma economia humana moldam uma nova realidade global
Por Mariela Torroba Hennigen
Dos campos de Huila às salas de aula de Budapeste, emerge um novo paradigma. Jovens e agricultores demonstram que uma economia humana é possível, aquela que prioriza dignidade da pessoa e o trabalho colaborativo, em vez do lucro financeiro tradicional.
Em novembro de 2025, dois jovens húngaros — Péter Meszéna e Gábor Utassy — participaram da Conferência sobre a Economy of Francesco (EoF – Economia de Francisco), em Roma, Itália. Mais de 500 pessoas se reuniram para refletir sobre a economia, uma economia humana, e ambos buscavam respostas sobre como alinhar os valores pessoais com a profissão, enquanto davam prosseguimento ao mestrado em economia e gestão.
Afinal, o título do evento era “Restarting the Economy” (Reiniciando a Economia), com as palavras Rest (repouso) e Arting (arte) colocadas em linhas separadas — uma escolha deliberadamente desconexa para enfatizar a importância tanto do descanso quanto da arte.
Reiniciando a Economia: a arte do repouso e da humanidade
Péter nos contou que grande parte da conferência foi dedicada à música, um aspecto que ele apreciou muito. Gábor acrescentou que também havia outras oficinas de arte, como o aprendizado de caligrafia chinesa. “A economia imaginada pela Economia de Francesco é algo que valoriza profundamente o ser humano”, disse Péter, “e a arte é muito próxima e fundamental para a humanidade. Creio que isso a torne [a economia] ainda mais humana.”
Qual foi a principal lição que eles aprenderam na conferência? “Crescer é lindo, mas também cansativo”, disse Péter. “Não podemos continuar assim indefinidamente. Há necessidade de descanso. E isso não está no centro da economia dominante, focada em maximizar lucros.”
Para Gábor, foi fundamental também aprender a enxergar o aspecto humano de cada trabalhador, e não apenas seu papel como funcionário. Embora possa parecer um conceito óbvio e inequívoco, ele explicou que é fácil esquecê-lo.
“Quando você trabalha em multinacionais, é muito fácil cair nessa lógica, porque tudo se resume a… medições [e] números. E a consciência da essência se perde. Você está trabalhando com pessoas… E deveria trabalhar para as pessoas. Se mantiver o olhar [e o coração] aberto para enxergar a pessoa e essa perspectiva artística [e diversificada], é mais provável que não caia nessa armadilha.”
Essa prática de reconhecer o aspecto humano em cada trabalhador é o que um grupo de agricultores vem realizando em uma região rural da Colômbia há mais de trinta anos.

PADEVI na Colômbia: priorizando o impacto social em vez dos orçamentos
O padre Emiro Barrera Rojas fundou a Asociación Comunitaria Economía de Comunión Palabra de Vida (ACEDECO PADEVI) em 1995. Isso ocorreu alguns anos depois de visitar Loppiano, na Itália, e ter conhecido a Economia da Comunhão: uma iniciativa do Movimento dos Focolares que propõe um novo modelo de empresa profundamente enraizado no pensamento católico e na espiritualidade da unidade. Os princípios da Economia da Comunhão orientam os empreendedores que atuam dentro das estruturas atuais do capitalismo e dos sistemas de livre mercado que governam a maioria das economias.
A ACEDECO PADEVI está localizada no distrito rural de Aguas Claras, no município de Timaná, no departamento colombiano de Huila. Aqui, eles se dedicam ao cultivo de café, à aquicultura e à criação de animais. Yesid Chilito, gerente de operações desde 2012, explicou que o principal objetivo da PADEVI é o trabalho decente — e os aviários mostram claramente como essa visão é colocada em prática.
Durante seu trajeto semanal para Aguas Claras, Yesid aprendeu mais sobre a relação da comunidade com o consumo de frango. “[Na época] Havia uma reclamação recorrente de todos que iam lá: que a proteína mais acessível para a comunidade era o frango”, disse ele. “Por ser mais barato. Mas todos reclamavam da qualidade do frango, porque o único disponível na região era importado, e as pessoas diziam que era só líquido, que tinha gosto ruim e cheirava mal.”
Foi então que ele propôs criar os próprios frangos dentro da ACEDECO PADEVI para alimentar a comunidade de Aguas Claras.
“Era uma comida de altíssima qualidade para todos, algo parecido com o que chamamos de ‘frango de criação livre’ aqui na Colômbia”, explicou Yesid. “É um frango delicioso, de que as pessoas realmente gostam, mas que poderia ser produzido de uma forma mais industrializada.”
Ele também relatou as dificuldades enfrentadas no início desse projeto. A primeira tentativa foi com 100 frangos. “Morreram 97”, disse Yesid, “e os três sobreviventes estavam longe do resultado que almejávamos. Mas continuamos crescendo, [e, por fim,] conseguimos padronizar o processo de produção que tínhamos… E decidimos entrar no mercado.”
PADEVI (um acrônimo formado pela primeira sílaba de cada palavra de Palabra de Vida, Palavra de Vida em espanhol) tem oito famílias e 14 parceiros, e a produção é inteiramente colaborativa.
“A nossa estrutura organizacional não é piramidal”, afirmou Yesid. “Estamos todos no mesmo nível. Aqui, mesmo que haja os gestores, não há níveis hierárquicos. Na verdade, cada um é responsável por atividades ou áreas específicas. E cada pessoa é responsável por um papel particular que lhe foi atribuído.”
Segundo o site, a missão da ACEDECO PADEVI é “viver como os primeiros cristãos, que tinham tudo em comum e partilhavam tudo, a fim de melhorar as condições de vida dos nossos membros e da comunidade ao redor, por meio da produção e comercialização de produtos agrícolas que permitam manter a segurança alimentar da região, de acordo com a filosofia de doar e compartilhar.”
Yesid disse que “certa vez, o contador disse que tínhamos que fechar o negócio dos frangos porque não gerava lucro. Eu respondi: ‘Mas a criação de frangos é a que gera mais empregos’.”

“Uma gota no oceano”: o futuro dos polos locais da EoF
Embora possa parecer contraintuitivo na forma dominante de fazer negócios, essa pode ser uma das formas de reiniciar a economia: colocar as pessoas no centro e recordar a dignidade intrínseca do trabalho, como Gábor destacou na conferência Economy of Francesco, na Itália.
“É algo com que eu pessoalmente tive dificuldade quando comecei a tentar aprofundar esse tipo de forma alternativa de fazer negócios”, disse Gábor, “porque me sentia pequeno e insignificante demais para contribuir para algo maior.”
Ele citou uma mensagem de Madre Teresa, que o tocou profundamente: “Nós mesmos sentimos que o que fazemos é apenas uma gota no oceano. Mas se essa gota não estivesse no oceano, creio que o oceano seria mais pobre pela falta dessa gota”.
“A maioria das pessoas ao meu redor, no meu curso de mestrado, não se preocupava nem um pouco com o impacto social”, acrescentou Gábor, “e eu pensava: ‘Tudo bem, talvez isso não seja muito animador”. Mas, de certa forma, é como uma confirmação do fato que… você não deveria se preocupar com o quão pequeno é, ou como é pequeno aquilo que você faz… Você só precisa continuar, e aí pode crescer.”
Gábor e Péter, após retornarem da conferência, reuniram-se com o conselho da Economia de Francesco para discutir a possibilidade de abrir um polo de EoF na Hungria. São comunidades de jovens ao redor do mundo comprometidas em difundir essas ideias dentro das próprias realidades locais.
“Existem centros pelo mundo todo para tornar tudo local, e não apenas algo centralizado e idealista”, explicou Péter. “Eles querem se concentrar em tornar tudo realmente adaptável a qualquer contexto. E voltamos para casa dizendo que também deveria existir um centro na Hungria. Então, vamos dar um passo nessa direção.”
