Educação e Pesquisa

Ensinar a paz nas escolas: a pesquisa que estuda como torná-la possível

by Mariela Torroba Hennigen

Ensinar a paz nas escolas: a pesquisa que estuda como torná-la possível
Markus Spiske - Pixabay

Uma pesquisa de doutorado analisa como levar a educação para a paz às escolas e que tipo de formação os professores precisam para aplicá-la. O estudo toma como caso o projeto Living Peace International.

Quando Lisiane Mazzurana iniciou seu doutorado na Università Sophia (Itália) dentro do programa Cultura Dell’Unità (Cultura da Unidade, em italiano) em outubro de 2024, ela não conhecia a iniciativa do Living Peace International, oficialmente iniciado em 2012.

“O Projeto Living Peace International é um percurso de educação para paz,” de acordo com o site da organização. Este “percurso,” é descrito pelo Living Peace, como uma “aposta no desenvolvimento da criatividade e autonomia da juventude para enfrentar as problemáticas e conflitos,” ensinando-os a dialogar e formando-os a “serem protagonistas, adquirindo assim a consciência das próprias potencialidades” e “sentindo-se todos responsáveis por tudo.”

Lisiane Mazzurana
Lisiane Mazzurana

Ao aprender mais sobre a plataforma, Lisiane se interessou em investigá-la mais e utilizá-lo como objeto de pesquisa em sua tese. A jovem brasileira de 31 anos foi entrevistada pelo United World Project sobre o decorrer do seu projeto até então que busca averiguar se a educação pela paz é possível, e como se podem formar os formadores que iram executar este projeto pedagógico pela paz em diferentes escolas.

Qual é o tema e foco da sua tese de doutorado?

Meu tema é um estudo pela paz a partir do projeto do Living Peace. O foco são os professores porque a ideia é entender como que o Living Peace foi parar nas escolas, e qual é a formação que esses professores que optam por levar o Living Peace para as escolas receberam deles [da organização Living Peace]. Então a ideia é essa: investigar a parte formativa e aí, através disso, então, trabalhar a formação dos próprios formadores do Living Peace para que tenha mais formadores.

Você ainda está nas fases iniciais do seu projeto de doutorado. Qual é a estrutura ou desenvolvimento que você antecipa para ele ir se realizando aos poucos?

Eu estou fazendo uma revisão do passado para entender os conceitos de paz já existentes dentro da filosofia, dentro da sociologia e da teologia. Porque, embora eu não vá pesquisar conceitos religiosos, há o conceito de paz dentro da teologia é muito importante porque o Living Peace nasceu dentro de um movimento religioso. Então, eu tenho que entender qual é o olhar que o fundador teve sobre o conceito de paz para fazer nascer o Living Peace. O que que foi que impulsionou ele nesse sentido? E aí os conceitos filosóficos, porque a filosofia é a base da nossa vida, é o pensar… e o sociológico porque são os conceitos da construção da sociedade. Então, como o Living Peace está em vários continentes, eu preciso entender a estrutura desses continentes e como eles enxergam a paz para entender como que os projetos se desenvolvem no restante do mundo. Apesar de eu ter um foco muito específico, que é a educação e a formação dos formadores, eu preciso entender a da criação do movimento do Living Peace.

Sua investigação inicia com uma análise da paz histórica através de uma abordagem interdisciplinar. Como que cada disciplina tem informado sua investigação?

Eu ainda não cheguei a investigar a sociologia muito a fundo. Eu ainda estou na base da leitura. Mas a filosofia é muito no pensar para a paz, né? Como uma paz positiva e a paz negativa, que até isso eles definem, sabe? Eu nunca tinha imaginado a paz como um efeito negativo. Mas a filosofia traz essas questões que o efeito negativo dela é a partir da visão da paz de guerras*. Então ela tem o seu lado negativo, porque as pessoas criam a guerra já esperando pela paz. Então não é uma paz positiva. E isso mexeu muito comigo porque eu achava que era bem diferente. A gente costuma escutar na escola, nos noticiários, da questão de guerra, e vamos todos lutar pela paz. E você acha que a paz ela é algo posterior… e eles já fazem pensando desse modo, porque a filosofia é muito da construção do nosso pensamento. Então ela trouxe bastante conceitos nesse sentido.

Antenna - Unsplash
Antenna – Unsplash

E aí ela vem trazer uma outra visão que eles chamam da visão pós-moderna da paz, que é aquela que você construindo no seu cotidiano, já com o objetivo de ter, não só no teu dia a dia, momentos de paz, mas ela vai te explicar que a paz, ela não é só um pensar ou só um sentimento. Ela é uma ação também. E aí achei muito interessante essa parte filosófica que eu estou fazendo… e na pedagogia ela vem casar muito com isso e ela traz muitos conceitos religiosos. Paulo Freire era católico e aí ele vai trazer a questão da religião na parte da paz, que é importante trabalhar isso nas escolas. E é uma paz construtiva. Não é uma paz pacífica que você só aceita, sabe… Ele vai trazer, a partir da educação, que todos somos construtores de paz.

E a parte teológica, claro. A gente vai ter a questão das Cruzadas, que ela era entendida como um bem da Igreja para conseguir a paz. Depois, tem um outro olhar que a teologia vai trazer, que é referente à paz que nós também construímos, assim como a filosofia fala, que é diferente daquela das Cruzadas. Porque as Cruzadas depois foram entendidas como um processo de guerra… como necessário lutar por aquele Deus com armas. E aí vamos trazer uma outra visão disso. Não é por aí que a gente vai construir a paz, né? Então a gente tem que construir sim, mas com outras ferramentas e não pela luta física, né? E aí vamos falar do diálogo, que é a base principal para construir a paz. É saber aceitar e respeitar a opinião do outro, independente do que pensa dele, do país de onde ele vem, da cultura que ele tem.

Quais são alguns desafios que você já encontrou até agora ao realizar sua investigação para este projeto?

Na sociologia tem muito, porque daí eu vou pegar as questões políticas. Como cada país, cada continente entende a paz, né? Principalmente essa divisão entre Oriente e Ocidente, que tem muito na questão cultural. E a paz também vem muito da cultura, né? Cada uma enxerga ela de um modo. Para uns é um estilo de vida. Para outros é uma conquista. E aí, para conquistar, a primeira coisa que se vem em mente é a guerra. Eu preciso ter uma guerra com uma pessoa para conquistar outra coisa? Então é uma construção cultural.

E na parte pedagógica?

Você vai trabalhar a visão da criança, vai ajudar ela a construir diversos modos de ver a paz. Que ela começa por você: pelas escolhas que você faz, nas reações que você tem no teu cotidiano que não é uma coisa longe da gente como a gente imagina. Mas ela está ali todo dia contigo e tu que escolhes fazer ou não. Além de um sentimento, ela é uma ação concreta. Paulo Freire cita alguns conceitos que ele vai trazer na parte educativa, que envolve a paz, principalmente quando ele casa com o diálogo. Ele começa falando da importância do diálogo na educação, do saber respeitar o teu aluno como um ser em construção. Não é porque você é o professor dele que você impõe as coisas. Mas você constrói junto.

Qual é a importância do conceito de paz pedagógico, na sua opinião?

Na escola, a gente não ensina o nosso aluno a ser autônomo, a saber defender as próprias ideias, a buscar construir algo diferente com aquela pessoa que ele não se dá bem às vezes. Então, são coisas que a professora está tão focada em dar o seu conteúdo que ela esquece que ela pode relacionar as coisas. Então, quando eu olho para o meu conteúdo, por exemplo, eu tenho que ensinar pra eles a divisão de bairros, que é a base da base que a gente começa na alfabetização. Onde é o meu bairro? Qual é a minha rua? Essa identificação que a criança precisa ter para ela saber se situar. Se eu começo conversando com ela na divisão só do meu bairro… Quantas pessoas ela tem de vizinho? Com quem ela conversa? Com quem não? Por que não conversa? Você já vai ajudando nessa construção de conhecimento.

StockSnap - Pixabay
StockSnap – Pixabay

E aí você pode começar a semear os conceitos de paz na vida dela, pra ela entender que só porque o meu vizinho, por exemplo, não se dá bem com a minha mãe, porque brigam, discutem por outras coisas de adulto, eu posso brincar com o filho dele. Isso não me impede de construir uma amizade com a criança, sabe? Mas aí a gente tem que dar esses pequenos passos dentro da educação, que às vezes muitos professores não querem se envolver porque dá trabalho, porque você tem que conhecer o teu aluno. Você não pode só chegar na sala, cumprir o teu papel e ir embora. Não, você tem que se envolver e se relacionar com a história de cada um deles. Às vezes você tem 20, 30 crianças. É um trabalho que você tem pra fazer, sabe? Mas se você não fizer esse trabalho, quem vai fazer?

O que diz a literatura — que você examinou até então — sobre a possibilidade de uma educação pela paz?

Ela disse que é possível — até que no Brasil tem um trabalho no Rio Grande do Sul, também de uma pesquisadora que ela fez uma pesquisa de mestrado justamente sobre uma escola com educação para a paz. Então, sim, é uma coisa que a gente consegue, mas vai depender muito de como o projeto está estruturado. Se ela vai ter visões políticas, religiosas… porque depende de muitas, muitas questões pequenas que podem mudar todo um projeto. Então ela tem que ter muito definido. E a literatura me ajuda nisso, sabe? Pra Paulo Freire, a educação é uma coisa que te liberta, te dá poder de conhecimento, de discussão, de defesa, de você fazer as tuas escolhas a partir da educação. Coisa que hoje a gente já não vê mais nas escolas acontecer. É uma imposição.

Você acha que a educação para paz é uma solução para talvez muitos sintomas do que a gente está vivendo hoje como sociedade?

Eu acho que sim. Eu sei que é um caminho muito árduo. É algo que vai exigir muito de quem vai entrar nesse, nesse tipo de educação e vai exigir não só a nível de conhecimento, no caso, mas eu digo assim de predisposição, sabe, de você estar ciente do que vai vir com esse combo que você tá aceitando, né? Porque você vai ter que ter paciência no processo. Vai ter que ter, principalmente com as crianças. É a parte mais difícil porque a gente vai ter que escutar a criança na essência toda dela. Não se divide, tipo, “Ah, daqui para dentro é o meu aluno. O que está lá fora, então fica lá fora.” Não funciona assim com eles. Então, ter essa noção assim que você vai encontrar isso, mas depois também muita crítica, porque vai ter muitos professores que vão criticar porque não vai entender o processo. Vão levar muito para questões religiosas. Então, apresentar o projeto não como a salvação de uma religião, sabe, mas como algo que vai ajudar a sociedade.

Um papel fundamental, então?

Acho que a educação pela paz hoje, para mim é uma esperança educativa, no sentido mesmo da educação, mas também é uma esperança de sociedade, sabe? Porque ela pode ir além das paredes da sala de aula, né? Ela pode virar projetos sociais dentro da igreja. Ela pode virar projetos de um bairro, sabe, que vê que tem situações. Então usar um projeto de educação para a paz nesse sentido. Acho que dá para ampliar muito assim o olhar desse projeto educativo para além da sala de aula.

Vivemos em um contexto em que vemos a paz pelo mundo cada vez observamos a paz estar ameaçada, fragilizada, ou em xeque. Com isso em mente, qual é o papel de um projeto de pesquisa como o seu?

Me lembrou uma frase que eu escutei no semestre passado do meu professor de políticas. A gente estava discutindo muito essa questão entre Israel e Palestina… e ele disse que a paz perpétua nunca vai existir na Terra.

Javier Trueba - Unsplash
Javier Trueba – Unsplash

É que a paz perpétua, como a gente imagina que o mundo inteiro vai viver em harmonia, sem nenhuma guerra, eis que não tem como acontecer, porque cada um pensa diferente. Cada político que assume a posição de um país pensa diferente. E é como ele pensa e é rígido o seu governo que vai definir se vai ter ou não conflitos. Se vai existir guerras, então isso é muito, muito difícil. A gente vive num mundo em que pelo menos um ou dois países não vão entrar em guerra por alguma coisa. E ali eu comecei a entender como que a gente não é treinado e não é ensinado na escola a pensar fora da caixa, porque a gente pensa só aqui, né? É o meu país, o meu estado, a minha cidade e acabou. E não é tudo o que a gente vive já que engloba muito mais coisas.

Então, como devemos pensar sobre a paz olhando para o futuro?

É possível fazer esse projeto porque primeiro eu tinha que entender se era possível ou não. Se é algo que dava para eu bancar a defesa dele ou não. E muitas vezes eu me perguntei se realmente eu tinha condições. Porque eu sei que muitas coisas do que eu falo tem a tendência da religião por trás. Porque eu sou muito católica, defendo muito o que eu acredito. Então eu tinha que ter muito esse cuidado de quando eu escrevo e eu releio muitas vezes para corrigir isso em mim, de não ter uma visão religiosa, de ter uma visão mais neutra nesse sentido. Porque eu não posso levantar uma bandeira religiosa no meu projeto. E ela tem que ser aberta para todos. Então eu tinha que ter esse cuidado, sabe? De escrever que a paz é para todos, mas nem todos vão conquistá-la em terra. Sabe, é uma coisa que você vai construindo dia a dia, mas a perpétua, como a gente espera só na eternidade. A gente vai ter. Você já está preparando o terreno para depois. Você já está deixando coisas para a próxima geração que tá vindo. Você não pode pensar que é inútil. Tem que dizer não é possível. Dá pra fazer. Vai dar trabalho. Vamos ter que brigar aqui um pouco pela paz. Mas é uma briga que é importante ser feita.

A esta altura no desenrolar do seu projeto, talvez seja precipitado ter conclusões contundentes. Mas quais são algumas observações ou descobertas que você já fez até agora que te surpreenderam?

Essa da paz perpétua para mim foi um choque, porque eu achava que era uma coisa possível. Eu pensava que era realmente, sabe? Se não, a gente pode ter um país, um mundo que vive em completa harmonia. E aí, quando meu professor [diplomata]… veio com aquela síntese, para mim foi algo muito doloroso escutar, mas também foi algo que [que tive que aceitar como] uma realidade. Tenho que abraçar isso como ela é. Mas também não posso deixar isso passar, sabe? Eu tenho que abraçar isso, tenho que superar e então, aqui e agora, o que que eu posso fazer por essa paz para construir essa paz? Então eu comecei a olhar por esse viés para eu não ficar muito triste, sabe? Papa Francisco falava muito da casa comum, da gente cuidar, porque ela pertence a todos nós. E eu acho que a paz é muito isso, sabe? Ela é comum. Ela é para todos e de todos. E somos todos nós que precisamos cuidar dela. Como algo como se fosse um patrimônio da humanidade. É teu para você zelar por aquilo e fazer algo com isso, né? Produtivo. Bom. Então é um caminho.