O que é diálogo e por que ele é indispensável para construir o mundo que merecemos
O que é “diálogo” e por que ele é indispensável para construir o mundo que merecemos
Por Roberto Catalano*
Eis o segredo: só sei que nada sei. Ninguém possui a Verdade absoluta e, dialogando com todos, podemos captar aspectos, fragmentos da verdade que nos ajudam a colar os pedaços um vaso que se quebrou, que só podemos reconstruir se estivermos “juntos”.
“Vivemos em uma época não apenas de mudanças, mas de verdadeira mudança de época”, afirmava o papa Francisco. Vivemos em um mundo onde as referências parecem ter desaparecido e, diante da diversidade, parece que a única solução é o confronto. Somos espectadores indefesos de conflitos e violências que vêm acontecendo há anos, em relação aos quais parece que nada pode ser feito. Mesmo em lugares que parecem não estar abalados por guerras, vivemos em um clima constante de polarização. Isso significa a presença de tensões e de conflitos potenciais que podem surgir de repente, mesmo que pareçam inesperados. As polarizações que todos nós experimentamos em nossa pele geralmente se devem a desigualdades sociais, à origem étnico-cultural e, portanto, também à filiação religiosa. A tudo isso se somam as distâncias geracionais, que parecem transformar nosso mundo, todos os dias, em compartimentos herméticos, com progressiva incomunicabilidade entre gerações, segmentos isolados dentro do próprio mundo em nossas sociedades.

Diálogo como chave
Nesse contexto complexo, o diálogo é uma chave inevitável para o futuro da humanidade. Na verdade, se os partidos polarizadores e polarizados não encontrarem uma forma construtiva de começar a conversar, de se conhecerem melhor, de se valorizar e oferecerem ao “outro” a possibilidade e o direito de “ser outro”, seremos condenados a uma colisão frontal. Em outras palavras, hoje é necessário aprender a arte do diálogo, que poderíamos definir como chave para a sobrevivência. Isso não é uma descoberta moderna nem recente. Todas as culturas, ao retornarem aos seus albores, percebem que o diálogo representou um papel fundamental, que caracteriza suas respectivas origens. Basta dizer que o livro fundamental da filosofia confucionista são Os Diálogos; que a cultura indiana e a cultura budista também se baseiam em diálogos entre o guru e os alunos ou entre Buda e seus monges. O mundo judaico, ainda hoje, nos centros de estudo e de difusão da sua cultura, avança por meio de diálogos. Seu método é a hevruta, que significa estudar juntos, porque – diz a sabedoria rabínica – estudar sozinho significa permanecer ignorante. O pensamento e a escola de Platão também eram dialógicos, e nós não podemos esquecer que as páginas mais belas e desafiadoras dos Evangelhos são aquelas em que Jesus entra em diálogo com seus discípulos, com aqueles que encontra pelas ruas da Galileia e também com a multidão. Parece, portanto, que dialogar faz parte da essência humana. Logicamente, há o próprio estilo, a própria metodologia e, claro, os próprios fundamentos.
Com efeito, não é possível dialogar se, antes de tudo, não conhecermos a nós mesmos. A identidade – saber quem eu sou/somos – é fundamental para ter capacidade de dialogar.

Igualmente fundamental é a consciência de uma certa ideia de quem é/são os “outros”, para mim e para minha comunidade. Na vida de cada um de nós, há uma tensão constante na qual somos chamados a viver todos os dias: entre identidade e pluralismo. Com o diálogo, é possível facilitar a transição de um possível encontro-desencontro para uma apreciação do outro. A chave para esse processo é a capacidade de colocar em ação a Regra de Ouro no nosso ambiente e no contexto de vida: “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você” e “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a você”. Cada cultura traz consigo a riqueza de uma formulação da Regra de Ouro, que se manifesta como um know-how indispensável para sanar diferenças, polarizações e até mesmo para alcançar a paz, a compreensão e a apreciação recíproca. A Regra de Ouro, se colocada em prática, tem grande capacidade de desencadear mecanismos de adaptação mútua, além de ajudar indivíduos e grupos a construírem pontes, esquecendo a possibilidade de “desencontros”. A experiência da Regra de Ouro ajuda a estarmos constantemente abertos para aqueles que são diferentes de mim/de nós. E abertura significa aprender com os outros, crescendo e também mudando a nossa percepção da realidade.
Ser interpelado suspende o preconceito e gera uma pergunta
Um segundo aspecto que o diálogo exige de nós é participar. A Regra de Ouro ajuda a não nos fechar em nós mesmos, a não sermos autorreferenciais e, portanto, a “baixar a guarda” e a nos abrirmos para aqueles que são diferentes de mim/nós, aprendendo muito com sua cultura, personalidade e religião. Tais atitudes, no entanto, exigem reciprocidade. Na verdade, não é possível estabelecer o diálogo sozinhos. É necessário estarmos juntos para viver a Regra de Ouro. É uma forma de responder à abertura do outro. Tudo isso contribui para a confiança mútua, que nunca pode ser dada como certa. Deve ser conquistada a todo momento e a cada encontro. E isso nos ajuda a nos tratarmos como iguais, eliminando preconceitos e discriminações que todos nós temos, um espólio do nosso ambiente e da educação recebida, mas também do bombardeio midiático ao qual somos submetidos hoje. E, por fim, é necessário sermos empáticos, sentir o que o outro sente e viver isso com ele ou com ela.

No decorrer desses processos, se se tratar de diálogo verdadeiro, os dois ou mais protagonistas – como indivíduos, mas também como grupos/comunidades – vivem uma experiência em que cada um “se sente envolvido, ameaçado, encorajado, estimulado, provocado, profundamente abalado”[1]. O diálogo tem um valor transformador: sempre saímos dele profundamente diferentes de como entramos. É claro, cada um é filho da própria etnia, cultura, comunidade social (grupo, clã, tribo, casta, partido político etc.) e carrega consigo preconceitos contra o outro e outras comunidades. Ter “preconceitos” não é necessariamente ruim. Torna-se ruim quando são transformados em dogmas inabaláveis. O filósofo alemão Gadamer enfatiza a importância de ter preconceitos que considera legítimos e que, como tal, não podem ser condenados ou eliminados[2]. Não se trata de renegar a própria tradição ou de se distanciar das origens religiosas e culturais que nos caracterizam. Isso não seria possível, pois cada um de nós está intrinsecamente ligado à sua tradição e às perspectivas que lhe foram transmitidas. O processo é o de um vai e vem hermenêutico, que precede o encontro com o “outro” e permite mudar, refinar e corrigir as expectativas que cada pessoa carrega em seu coração e na mente. Não é fácil estarmos cientes desses preconceitos que cada um de nós traz em si. Só percebemos isso quando eles são desafiados e questionados por um estímulo externo. Justamente aqui começa o processo que pode nos levar a entender o “diferente”. Ser interpelado por alguém, de fato, interrompe ou suspende o preconceito e gera uma pergunta[3]. O que importa é estar pronto para aceitar esse processo que leva à consciência socrática de “só sei que nada sei”. De fato, uma pergunta pode ser formulada e apresentada apenas por aqueles que estão cientes de sua ignorância e desejam saber mais.
Eis o segredo: só sei que nada sei. Ninguém possui a Verdade absoluta e, dialogando com todos, podemos captar aspectos, fragmentos da verdade que nos ajudam a colar os pedaços de um vaso que se quebrou, que só podemos reconstruir se estivermos “juntos”. Mas, para tudo isso, é necessário ter paciência para construir ou reconstruir, momento a momento, dia após dia, uma “cultura do diálogo”. Todos são protagonistas.
*O autor é professor no Instituto Universitário Sophia e especialista em diálogo inter-religioso.
[1] PANIKKAR, R. L’incontro indispensabile: dialogo delle religioni. Milão: Jaca Book, 2001, p. 33.
[2] Cf. GADAMER, H.G. Truth and Method. Londres: Sheed & Ward, 1975, p. 277.
[3] Ibidem, p. 207.
