Arte e Compromisso Social

Substituir a fome por flores: um novo modelo de serviço social no Brasil para pessoas em situação de rua

by Mariela Torroba Hennigen

Substituir a fome por flores: um novo modelo de serviço social no Brasil para pessoas em situação de rua
Eugene Chystiakov - Unsplash

Em Porto Alegre, a iniciativa Troque a Fome por Flor beneficia pessoas em situação de rua mediante a venda de flores e a educação financeira. Esse modelo inovador de intervenção social no Brasil substitui a fome por dignidade, oferecendo um caminho para a independência por meio do trabalho.

Quando Lorenzo Dovera estava prestes a concluir seus estudos universitários em administração pública e social em 2021, seu projeto de tese colocou em evidência o quanto a cidade de Porto Alegre (Brasil) carecia de políticas para ajudar pessoas em situação de rua a obterem renda.

“O que eu frequentemente percebia era que essas pessoas saíam dos abrigos às seis da manhã [durante o frio] e passavam o dia inteiro em frente à entrada, esperando para poderem voltar”, disse ele.

Ele observou que isso já acontecia na fase final da pandemia de COVID-19. “Muita gente estava desempregada, muita gente morando nas ruas e muitos deles tinham aquelas placas, sabe?”

As placas diziam: Estou com fome, me ajude.

“E foi aí que nasceu a ideia… Por que não substituir esses cartazes por algo que os ajude de forma mais digna?”

Troque a Fome por Flor: a iniciativa que muda vidas

Dessa ideia nasceu o nome do projeto: Troque a Fome por Flor. Os vendedores são chamados de “floristas” e, como a primeira tentativa aconteceu por volta do Dia das Mães, Lorenzo considerou que flores eram um bom produto a ser vendido. À medida que o projeto crescia, os floristas começaram também a vender mudas de ervas aromáticas nas ruas do centro de Porto Alegre. São embaladas em recipientes feitos de caixas recicladas de leite Tetra Pack.

Cada caixa contém 15 mudas. Com o aumento dos participantes, Lorenzo introduziu ainda a educação financeira. “Essa consciência nasceu”, explicou ele, “do seguinte pensamento: ‘Não posso gastar tudo que ganho vendendo essas plantas. Preciso reservar um pouco do dinheiro para dar ao Lorenzo’.”

Era necessário vender cada vasinho por ao menos R$5,00. Os floristas podiam, então, comprar quatro caixas novas de recipientes por R$1,00 para revender na semana seguinte.

“A ideia é criar uma progressão com eles, entende? Nosso lema é a confiança. Confio que você voltará no próximo sábado e me trará R$1,00”, explicou Lorenzo. Ele costuma brincar dizendo que “se vocês não trouxerem o real, acabarão levando o negócio à falência”. E ele acrescenta que “é importante ter essa responsabilidade de economizar parte do dinheiro”.

Construir confiança e responsabilidade com o empreendedorismo social

Liderar o coletivo Troque a Fome por Flor comporta muitos desafios diários, desde encontrar colaboradores comprometidos em ensinar educação financeira, receber doações em dinheiro e coletar, limpar e transformar caixas de leite em vasos para as plantas.

Troque a Fome por Flor
Troque a Fome por Flor

“Essa é a beleza disso”, diz ele. “Essa corrente… eu a vejo como uma corrente fraterna, feita de afeto, amor e respeito.”

A principal dificuldade continua sendo ter um local fixo para se reunir todo sábado. Com a sua tese, Lorenzo identificou no centro de Porto Alegre a área com maior concentração de pessoas em situação de rua.

Todo sábado às 11h, sob o viaduto Imperatriz Leopoldina, Lorenzo se encontra com os floristas. Cerca de 12 pessoas participam regularmente, mas todo mês se unem a eles entre 30 e 40 pessoas novas.

Troque a Fome por Flor
Troque a Fome por Flor

“É lindo, porque ali acontecem muitas coisas”, ele diz. “Além do meu projeto, há barbeiros, uma ONG que distribui alimentos, às vezes outra que oferece cuidados médicos e um grupo que ajuda com os animais.”

“Também tem os palhaços, que fazem bagunça embaixo do viaduto”, ele acrescenta. “Tem um pouco de tudo. Cada um carrega a própria dor, a própria angústia por não ter um lar ou algo para comer no dia seguinte. Mas naquele momento quase parece um mundo diferente para eles.”

O que podemos aprender com os moradores de rua no Brasil

Lorenzo também disse que a maior lição que aprendeu com essa experiência é refletir sobre a gratidão pelo que temos. “Eu sempre falo disso com minha esposa. Do fato de acordar [na própria casa], de ter a cama onde dormir, o próprio banheiro para usar, sabe? Não saber se você vai acordar no dia seguinte é o que mais causa ansiedade para eles, certo? Então, acho isso é uma lição de vida, de gratidão, de reflexão diária, do fato que… não deveríamos reclamar quando temos tudo, não é? Temos uma família? Sim. Temos a chance de escolher, certo? Acho que essa é a reflexão mais bonita para nós.”

Lorenzo espera que as pessoas reflitam sobre os equívocos mais comuns a respeito dos moradores de rua.
“Existe um modo de dizer muito comum”, explicou: ‘Se você está na rua é porque quer’. Não, há muitas pessoas que realmente não têm oportunidades. A maioria delas está lá contra a vontade, sabe? Porque é realmente terrível. Todos dizem: ‘É o pior lugar para estar: a rua. Não sabe quem está ao seu lado nem quem você é’. Acho que todos precisam saber disso… que uma pessoa está ali não porque queira, mas como consequência da sua vida.”

“Foi assim que me sustentei: só graças ao trabalho”

Lorenzo viu que muitos floristas que conheceu e com quem trabalhou conseguiram sair da situação de rua. Débora Pedroso Porta, por exemplo, acaba de assinar um contrato com um empregador. Ela foi florista na Troque em Fome por Flor por cerca de um ano.

Troque a Fome por Flor
Troque a Fome por Flor

“Vim de fora da cidade. Eu não tinha onde comer, exceto no dormitório. E continuei assim. Então, alguém me disse: ‘Se você comprar uma flor pequena por 50 centavos e a revender na semana seguinte, pode me dar algo a mais…’ E foi assim que me mantive, foi assim que aconteceu. Nunca precisei me prostituir. Nunca precisei roubar. Tudo o que fiz foi apenas com o trabalho.”

Ela diz que a experiência como florista é “maravilhosa”, porque aprende algo novo todos os dias e também conhece pessoas novas. O que Débora gostaria que as pessoas soubessem sobre o projeto é: “Quando nós doamos algo de nós mesmos, recebemos muito em troca. Devemos nos doar sem esperar nada em troca, porque as coisas se resolvem sozinhas em nossa vida. Basta ter fé e tudo vai ficar bem”.

“Saber que alguém não precisa mais vender flores é a melhor notícia do mundo”, disse Lorenzo. “É o que me motiva e motiva o prosseguimento do projeto.”