Arte e Compromisso Social

De Picasso a Bansky: “A arte não se limita a representar o mundo, pode contribuir para transformá-lo”

by Edoardo Zaccagnini

De Picasso a Bansky: “A arte não se limita a representar o mundo, pode contribuir para transformá-lo”
"Guernica" - Pablo Picasso | Foto de Alinson Torres - Unsplash

A arte não é apenas memória, mas força viva. A historiadora de arte Giulia Spoltore nos guia pelas grandes obras que desafiaram a guerra, demonstrando que a beleza pode transformar a sociedade e construir uma cultura de paz universal.

A paz é a aspiração do ser humano, é sonho, ideal, mas também responsabilidade e dever. Por essa razão, o tema da paz frequentemente permeou a arte. Com Giulia Spoltore, historiadora de arte e funcionária do Instituto Central de Gráficos em Roma (do Ministério da Cultura), falamos sobre a paz por meio de algumas obras importantes da arte figurativa. Vamos começar com uma, intitulada La pace, de Antonio Canova.

Giulia Spoltore
Giulia Spoltore

Giulia, que características essa obra tem?

 La pace (A paz) possui uma camada de significados atemporais. Realizada entre 1812 e 1815, encomendada por Nikolaj Petrovič Rumjancev – diplomata e promotor dos tratados de paz para a Rússia –, representa um conceito sobre o qual Canova reflete enquanto a Europa é dilacerada pelas guerras napoleônicas. O artista fala ao presente, profundamente radicado nas raízes clássicas da cultura europeia.

Como?

A própria escolha do mármore, atribuída ao cliente, remete à antiguidade clássica e ao desejo dos antigos de eternizar, optando por materiais de pedra. Iconograficamente, Canova constrói a figura baseando-se em um léxico antigo: a figura da paz evoca a Nêmese grega, símbolo da justiça distributiva, enquanto a serpente – emprestada da tradição numismática romana – alude à guerra dominada e neutralizada.

Uma serpente simbólica?

No cristianismo, simboliza o diabo, a personificação do mal. Essa escolha faz parte de uma continuidade de significados que o artista explora. Até mesmo a opção pelo latim nas inscrições, resultado de negociações diplomáticas, expressa uma mensagem política e cultural: uma língua comum para um ideal comum, uma esperança de concórdia entre as nações europeias.

Obra política, portanto….

A história subsequente dessa escultura confirma o quanto, apesar de tudo, ela estava continuamente envolvida em equilíbrios geopolíticos. Doada ao Estado após a morte de Rumyatsev – e estabelecida no primeiro museu público russo –, foi transferida de São Petersburgo para Moscou e, em 1953, para Kiev, a pedido de Nikita Khrushchev. É uma passagem reveladora.

Em que sentido?

A paz torna-se parte da identidade cultural da Ucrânia, um patrimônio simbólico que hoje se torna ainda mais significativo pelo contexto internacional. Em 2022, com o mármore original em segurança para protegê-lo da guerra, o gesso de Canova com o mesmo tema foi exibido em Florença, no Palazzo Vecchio, não muito longe do Quarto Estado de Pellizza da Volpedo: como para dizer que a paz pertence aos povos que se opõem heroicamente à loucura da guerra.

Falando em paz, Picasso vem à mente. De que modo, Guernica – uma pintura sobre a guerra – nos fala sobre a paz e como relacionamos isso ao fato que, no período pós-guerra, Picasso se tornou ativista no movimento pacifista ao criar A pomba da paz e Templo da paz?

Guernica, realizado na primavera de 1937, é um dos manifestos mais poderosos feitos contra a guerra e, portanto, fala profundamente a nós sobre a paz. Picasso não a representa em modo direto, mas por meio da denúncia absoluta da barbárie: ele mostra o que acontece quando a paz é traída. A violência que percorre a tela – o grito da mãe, o cavalo ferido, a luz ofuscante da lâmpada, os corpos despedaçados – não é espetacular: é dor coletiva sem heroísmo, sem narração celebrativa, sem qualquer justificativa. Até mesmo o tamanho da tela (mais de 3,5 metros de altura e mais de 7 metros de comprimento) revela o peso esmagador da abominação que a guerra representa para o homem.

E a consternação também na escolha das cores?

O monocromático fala da ausência de vida e da alegria que a cor representa em seus tons. Essa radicalidade faz de Guernica uma obra de paz. Picasso rejeita toda retórica e retribui à guerra pelo que ela é: uma aberração que aniquila o humano.

"Guernica" - Pablo Picasso | Foto de Alinson Torres - Unsplash
“Guernica” – Pablo Picasso | Foto de Alinson Torres – Unsplash

Guernica antecipa Picasso como ativista do pós-guerra?

Com certeza. O trauma da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial marcou um limiar em sua vida. A partir da década de 1950, o artista sentiu a necessidade de traduzir sua posição ética em novas imagens, capazes de se tornarem ferramentas de comunicação imediata com um público amplo. Assim nasceram dois dos símbolos universais mais poderosos do século 20: A pomba da paz e Templo da paz.

A Pomba…

Escolhida como emblema do Congresso Mundial da Paz de 1949, logo se tornou um ícone global, porque combina uma forma extremamente sintética com um significado que pode ser lido por qualquer pessoa. Não é um símbolo político no sentido estrito, mas uma imagem arquetípica que atravessa as raízes judaico-cristãs: pensemos na pomba que anuncia a Noé o fim do dilúvio, ou na pomba que desce como Espírito no batismo de Jesus, que dali inicia sua missão salvífica.

E Templo da paz?

Pertence a uma dimensão mais meditativa, quase sagrada. Não está entre as suas obras mais conhecidas e reflete uma ideia espiritual da paz. É um grande ciclo pictórico criado entre 1952 e 1953 para a capela do castelo de Vallauris, na Provença, e atualmente faz parte do Musée National Picasso, La guerre et la paix. Picasso quer transformar esse espaço sagrado em um lugar dedicado à reflexão sobre a paz: um templo leigo e simbólico.

Como prossegue?

O artista utiliza a curvatura das abóbadas e a unidade do espaço como parte integrante da obra. Não se limita a decorar. Ele reconfigura o ambiente para criar um caminho que hoje chamaríamos de “imersivo”. O conjunto mede mais de 100 m² e é feito sobre painéis flexíveis que, depois, são adaptados às paredes.  A obra fala de dois mundos: paz e guerra, sendo que o primeiro entra no painel do segundo como um guarda nu com uma lança, uma balança e um escudo no qual a pomba está representada.

Um significado próximo de La pace, de Canova?

Exatamente. E a figura que mais amo é um cavalo alado puxando um arado conduzido por uma criança: uma imagem poderosamente simbólica. Evoca Pégaso e a inspiração divina, mas também a profecia de Isaías: “Transformarão as espadas em arados”, modificando, assim, os instrumentos da morte em instrumentos da vida.

Três obras e um caminho coerente…

Picasso se aproxima da paz porque já vivenciou a guerra. Guernica é o ato de denúncia; as obras do pós-guerra são a proposta. Picasso nos diz: depois de mostrar o que é a guerra, sou chamado a refletir sobre o que pode ser a paz. Essa continuidade torna sua contribuição muito importante. Picasso nos lembra que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas um processo ativo, um compromisso pessoal e coletivo, uma imagem a ser continuamente inventada e reinventada. A arte não se limita a representar o mundo, ela pode ajudar a transformá-lo.

Inclusive com os lugares…

Certamente. E morando em Roma, não posso deixar de mencionar a Ara Pacis, o grande altar erguido pelo Senado para a paz conquistada por Augusto em 9 d.C., após as campanhas da Espanha e da Gália. É um monumento de propaganda, que legitima o poder político de uma figura histórica extraordinária, mas nos mostra que a paz é uma alavanca para todos. Gostaria de mencionar especialmente uma igreja: Santa Maria della Pace, sobre a qual está sendo publicado um volume importante para o Ministério da Cultura, que tenho o privilégio de editar com três importantes historiadores da arquitetura: Paul Davies, Maria Beltramini, Augusto Roca De Amicis.

Sobre o que é?

Sobre uma igreja extraordinária que preserva obras de Rafaello, Orazio Gentileschi, e deve uma atualização do século 17 a Pietro da Cortona. Hoje, finalmente conseguimos dar a ela a atenção que merece.

De onde vem esse nome?

De uma história que entrelaça milagre, devoção popular e política pontifícia no coração da cidade de Roma do século 15. Santa Maria della Pace nasceu de uma cadeia de eventos: um milagre popular, uma cura atribuída à Virgem, um voto feito pelo papa Sixto IV durante uma ameaça de guerra e, por fim, uma paz reencontrada. O próprio edifício da igreja e sua dedicação a “Nossa Senhora da Paz” são o timbre de uma história de sofrimento, fé e gratidão, que transformou uma imagem, ferida por um sacrilégio, no centro espiritual de um novo e esplêndido santuário romano.

No grandioso projeto decorativo desenvolvido por Pietro da Cortona, um papel central é atribuído às figuras alegóricas que animam os arcos e a contrafachada. São as Virtudes que representam um verdadeiro “código moral” inscrito na arquitetura: Fortaleza e Prudência. Esse ciclo do século 17 está harmoniosamente integrado, no caminho iconográfico da igreja, com as duas grandes alegorias da Paz e da Justiça, colocadas acima do tímpano do altar-mor, mas também na contrafachada. São parte essencial do programa decorativo, visando valorizar o próprio título da igreja. A paz baseia-se no duplo eixo bíblico que une Maria ao dom da concórdia messiânica, enquanto a Justiça — uma virtude real e divina — evoca a visão conciliada do Salmo 85, segundo a qual “justiça e paz se abraçarão”.

Alegorias não apenas como ornamentos….

São ferramentas teológicas: guiam o olhar ao longo do eixo simbólico que une o presbitério ao octógono, articulando um discurso moral que, da Paz — um dom divino e fundamento da Igreja — irradia-se nas virtudes, chamando aqueles que entram a se moverem em um espaço que não é apenas arquitetura, mas um itinerário de elevação espiritual.

Ao nos aproximarmos de hoje, fico impressionado com Tuttomondo: o mural de Keith Haring realizado em Pisa, em 1989, na parede externa da Igreja de Santo Antônio Abade. O que você acha?

Tuttomondo é a última obra pública – acho que a única concebida como permanente – do artista americano. Foi concluída em apenas quatro dias, com a ajuda de estudantes e artesãos locais. Haring, convidado a Pisa, ficou impressionado com a cidade e quis deixar uma marca. Assim, a prefeitura e o pároco da igreja lhe ofereceram a grande parede norte do convento, parcialmente destruída pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

"Tuttomondo" - Keith Haring | Photo by Marco Pomella - Pixabay
“Tuttomondo” – Keith Haring | Photo by Marco Pomella – Pixabay

O que vemos no mural?

Cerca de 30 figuras entre seres humanos e animais antropomórficos, definidas por típicos contornos pretos e cores vibrantes. Não há um centro narrativo: a composição é um fluxo contínuo e dinâmico, um pouco como a nossa rotina diária. Cada figura carrega um símbolo, para uma narração visual de paz, harmonia, cooperação e unidade do gênero humano.

Quais símbolos?

Uma cruz composta por 4 figuras representando a cruz pisana, símbolo da cidade. A tesoura antropomórfica cortando uma serpente alude à vitória do bem sobre o mal. Um homem segurando um golfinho convida ao cuidado com a natureza. As figuras humanas, de diversas cores que compartilham a mesma forma, sugerem igualdade e superação do racismo. Uma mãe embalando a criança celebra a maternidade e a continuidade da vida. A figura com o braço que se conecta com a perna alude ao símbolo do infinito.

Ainda mais próximo da atualidade, penso na obra de Bansky, Dove of Peace, com a pomba usando um colete à prova de balas.

Realizada sobre o muro de separação em Belém, em 2005, Dove of Peace grita algo forte e claro. Como indica a mira apontada, a paz está sempre sob ataque e, portanto, deve ser defendida. Eu diria, interpretando de forma pessoal, não com a luta armada, mas procurando um colete à prova de balas para vestir: sabemos que o único colete à prova de balas contra a guerra é o amor, em todas as suas formas praticadas, da gentileza ao sacrifício de si.

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"Self Portrait" - Banksy - Photo by Dylan Shaw - Unsplash Large
“Self Portrait” – Banksy – Photo by Dylan Shaw – Unsplash Large

Michelangelo Pistoletto também se dedicou à relação entre arte e paz. Estou pensando na mostra La pace preventiva

Foi apresentada em 2023 no Palazzo Reale, em Milão, e é muito importante na última fase da pesquisa do artista, focada na transformação social por meio da arte. La pace preventiva (A paz preventiva) ocupou integralmente a monumental Sala delle Cariatidi, ferida pelos bombardeios de 1943 e deixada com esses sinais deliberadamente, porque na Itália a restauração não significa alterar a história, mas aceitar a estratificação que, nesse caso, também significa registrar a loucura da guerra. É um lugar cheio de memória histórica, portanto, o mesmo onde a Guernica de Picasso foi exibida em 1953. A paz preventiva estava em diálogo muito próximo com a história da sala.

Em que consistia?

Em um labirinto de papelão ondulado, espalhado e modulado por toda a superfície da sala. No interior, havia nichos e juntas que abrigavam algumas das obras mais significativas de Pistoletto. Incluindo a icônica Vênus degli stracci (Vênus dos trapos), Mappamondo (Mapa-múndi), La mela reitegrata (A maçã reintegrada), La colomba della pace (A pomba da paz). O visitante era convidado a percorrer um caminho sinuoso e deliberadamente desorientador, concebido como uma metáfora do caminho interior necessário para “sair do labirinto da realidade cotidiana e estabelecer a paz preventiva”.

O que significa paz preventiva?

A convicção de que a paz não é um resultado após o conflito, como acontece na geopolítica tradicional, mas um processo que deve ser estabelecido antecipadamente, por meio de responsabilidades individuais e coletivas. Como o próprio Pistoletto declara, a arte deve colocar o cidadão “no centro de uma transformação responsável da sociedade” e ativar práticas de participação democrática que ampliem o horizonte do possível. O labirinto de A paz preventiva tinha um valor simbólico adicional: um convite a reconhecer o “monstro” que habita no conflito, mas também em nossas mentes distorcidas.