Cidadania ativa e política

“O amor ao próximo torna-se o fundamento de uma sociedade mais justa”

by Edoardo Zaccagnini

“O amor ao próximo torna-se o fundamento de uma sociedade mais justa”
Fraternita e Profezia - Stefano Zaffino

Stefano Zaffino, autor de Fraternità e Profezia: Il pensiero di Igino Giordani nel solco dell’enciclica Fratelli tutti, reflete sobre a fraternidade como resposta aos conflitos e às divisões do mundo contemporâneo.

United World Project pode deixar de se concentrar em um livro cujo título contém a palavra “Fraternidade”? Um texto cujo subtítulo diz: O pensamento de Igino Giordani na esteira da encíclica Fratelli tutti pode deixar de atrair a nossa atenção? A obra escrita pelo jovem Stefano Zaffino, publicada pela Editora Tau e intitulada Fraternidade e Profecia, apresentou-nos uma oportunidade para dialogar com o autor.

De alguma forma, esse livro conecta o pensamento de Igino Giordani – cofundador do Movimento dos Focolares com Chiara Lubich – ao do papa Francisco, o pontífice que faleceu há pouco mais de um ano, em um contexto global de contínuas tensões políticas e conflitos.

Fraternidade e Profecia: O pensamento de Igino Giordani na esteira da encíclica Fratelli tutti

A questão fundamental, então, que talvez contenha também uma resposta, é a seguinte: «Que papel o cristianismo, e certos grandes exemplos humanos de cristianismo, pode desempenhar em prol de um mundo novo, no qual a paz e precisamente a fraternidade sejam realidades mais visíveis do que simplesmente invocadas?».

As páginas de Fraternidade e Profecia falam de uma solução, de uma espécie de antídoto para essa crise: um remédio social chamado fraternidade, que, se aplicado à sociedade civil, à política entendida no sentido mais elevado do termo, isto é, como um serviço a ser oferecido ao próximo, pode mudar as relações entre homens e povos, a ponto de considerar o outro como irmão.

Igino Giordani nos doa as seguintes palavras em “A Mensagem Social do Cristianismo”: «O cristianismo é aparentado com Cristo e, por Ele, com Deus, no primeiro grau de parentesco, que é a fraternidade». Lemos no folheto do livro de Zaffino: «Ao revisitarmos uma das passagens da Bíblia, a que narra o episódio de Caim e Abel, a nossa resposta não será mais a de Caim: “Sou eu o guardião do meu irmão?”, mas finalmente saberemos cuidar uns dos outros».

Por todas essas razões, decidimos conversar sobre esse texto tão interessante com Stefano Zaffino, formado em Ciências Religiosas pelo Instituto Superior “Don Tonino Bello”, de Lecce, Itália, e professor de Religião Católica. Fizemos isso começando pelo início.

Stefano, como surgiu a ideia desse belo livro?

O livro nasceu como uma dissertação durante os anos do meu mestrado em Ciências Religiosas. Nesse período, de cerca de dois anos, conheci a figura de Igino Giordani, incentivado pelo professor don Antonio Bergamo (também autor do Prefácio do livro, n.d.r.): professor e diretor do ISSRM (Instituto Superior de Ciências Religiosas Metropolitano “don Tonino Bello”). Fraternità e Profezia, contudo, nasceu também, e principalmente, como um antídoto à violência do nosso tempo, em que, diariamente, o irmão é considerado como um adversário a ser derrotado.

Stefano Zaffino
Stefano Zaffino

Como você harmonizou o pensamento de Igino Giordani com a encíclica “Fratelli tutti”?

Igino Giordani e papa Francisco falam a mesma linguagem: a do amor. Se falamos de amor, certamente estamos falando de um conceito universal. Ambos, embora em períodos diferentes, abordam o tema da fraternidade. Giordani, como resposta aos totalitarismos do século 20, que mergulharam a humanidade no sofrimento e no ódio. Para papa Francisco, a fraternidade assume um valor global, capaz de gerar uma nova ordem mundial baseada na paz e na fraternidade.

O que você descobriu sobre Igino Giordani durante essa viagem e o quanto pensamento, o ensinamento, o testemunho dele ainda são relevantes?

Giordani ainda é muito atual, porque a fraternidade nunca é considerada garantida nem o seu valor está ultrapassado. Em um mundo dilacerado por divisões, o amor ao próximo torna-se o fundamento de uma sociedade mais justa, e recorda principalmente que cada pessoa pode se tornar guardiã do próprio irmão ou irmã.

Em que medida, mais ou menos indiretamente, o seu livro fala sobre Chiara Lubich?

O encontro com Chiara Lubich foi decisivo para a vida de Igino Giordani: por meio dela, ele descobriu um novo cristianismo. Até aquele momento, ele tinha vivido um cristianismo social, enquanto Chiara tinha também um perfil místico bem acentuado, com grande sensibilidade à vida interior e comunitária. Ambos compartilharam a dimensão da fraternidade, pois cada pessoa é um irmão e filho do único Pai.

Fraternita e Profezia - Stefano Zaffino
Fraternita e Profezia – Stefano Zaffino

Sobre a escolha do título Fraternidade e Profecia. Como surgiu?

Escolhi esse título porque fraternidade e profecia são duas palavras que podem ser associadas à dimensão humana. Fraternidade diz respeito aos laços entre seres humanos e promove o cuidado recíproco e a solidariedade. Profecia não é previsão do futuro, mas sim a capacidade de viver o tempo presente denunciando tudo aquilo que desumaniza. É também a capacidade de evocar uma verdade mais profunda.

Seu livro teve uma apresentação na cidade de Andria [sul da Itália]. Houve algo em particular que chamou sua atenção naquela noite?

Nos últimos meses, tive o privilégio de vivenciar vários momentos de apresentação do livro: comecei em San Pietro Vernotico, na paróquia de San Giovanni Bosco, onde dei meus primeiros passos como cristão. Lá pude reencontrar muitas pessoas que me viram crescer e amadurecer na fé. Em Andria, por outro lado, conheci muitas outras pessoas fantásticas; apesar de nunca ter estado lá antes, fiquei impressionado com tanta adesão e participação. Tenho boas lembranças e estou ainda mais convicto, depois dessa experiência, de que a fraternidade é possível mesmo em nosso tempo tão complexo.