AMU, 40 anos de compromisso com o desenvolvimento e a reciprocidade entre os povos
Da Indonésia ao Sri Lanka, do Burundi ao Equador, a AMU acompanha comunidades protagonistas com projetos concretos que geram mudanças e novas oportunidades, fortalecendo as capacidades locais e a autonomia.
A AMU (Ação por um Mundo Unido) celebra 40 anos de atividade. Nascida como expressão do Movimento dos Focolares no campo do compromisso social, é uma resposta às necessidades primárias de pessoas e comunidades em condições críticas e vulneráveis.
Esse compromisso caracterizou a vida do Movimento desde o início, estendendo-se gradualmente a várias partes do mundo, onde surgiram comunidades sensíveis ao desafio das desigualdades, dos desequilíbrios sociais e econômicos. De forma esclarecedora, a fundadora Chiara Lubich convidava, em sentido evangélico, a “morrer pela própria gente”.
Para apoiar essas ações, foi criada uma rede de ajuda econômica, com o envolvimento de comunidades do Movimento, na Europa, Ásia, África e América Latina. Ao longo dos anos, essa rede foi sendo estruturada, até que, em 1986, foi constituída como uma ONG de cooperação internacional.
Stefano Comazzi, presidente da AMU, diz que aqueles foram anos de agitação e compromisso social, “nos quais as ONGs de cooperação desempenharam um papel decisivo na difusão da solidariedade entre povos e nações. A AMU se agregou a essa ‘missão’ com sua especificidade”.

Em seu estatuto, a AMU se define assim: “Contribuímos para a conquista do mais alto grau possível de reciprocidade entre indivíduos, comunidades e povos, fortalecendo a capacidade de liberar o próprio potencial de desenvolvimento”.
Inspirados pelo ideal que animou Chiara Lubich, os fundadores da AMU estabeleceram um objetivo ambicioso: contribuir para a realização do “Mundo Unido”. Um objetivo que nunca é definitivo, baseado no compromisso contínuo de cada pessoa que deseja orientar sua vida segundo o espírito do Movimento dos Focolares.
E a AMU faz isso no próprio contexto.
Atua em relações internacionais, ajudando povos e nações a compartilharem riquezas e especificidades, para um enriquecimento mútuo que vai além da dimensão financeira, e contribuindo para tornar a humanidade uma família autêntica, grande e solidária.
É por isso que o conceito de reciprocidade é tão importante?
É uma reciprocidade não baseada no “do ut des”[1], mas aberta, geradora, livre de beneficiários que dependem de benfeitores. É uma reciprocidade que coloca no centro a dignidade de cada pessoa e comunidade. Cada pessoa doa e recebe bens relacionais e materiais. Isso liberta os talentos e o potencial dos indivíduos, visto que a marginalidade social e econômica os torna passivos e desprovidos de autoestima.
Este ano, a AMU completa 40 anos.
É uma conquista e tanto! Emocionante. Mas vivo isso acima de tudo com a responsabilidade de concretizar as intenções e as profecias dos fundadores. Sou profundamente grato a eles pelo que fizeram e pelo legado que deixaram. Somos solicitados a atualizar o mandato estatutário em um contexto muito diferente – e mais complexo – do que o da fundação. Também sinto uma responsabilidade para com as gerações que ainda não nasceram: elas são portadoras de direitos, e as nossas decisões terão consequências para elas.
A AMU é feita de humanidade, mas também de números. São 873 projetos realizados; 14 em andamento. Foram alcançados, no último ano, 294 mil beneficiários. O que esses dados dizem?
Eles são importantes para ler a realidade, guiar escolhas e caminhos, mas por trás deles há pessoas, cada uma com histórias, desafios e metas alcançadas ou a serem alcançadas. Em nossas comunicações e relatórios sociais (publicados anualmente), preferimos dar voz às histórias dessas pessoas e de suas comunidades. Histórias daqueles que escapam do circuito da marginalidade e da miséria, colocando-se como atuantes e engajando a própria gente em ações de solidariedade e conscientização sobre questões de cooperação e desenvolvimento.
Ao longo dos anos, vocês reuniram histórias lindas e inspiradoras.
Desde as crianças dos subúrbios de Nairóbi, que enviaram pouco mais de três euros para uma ação emergencial na Ásia, até a solidariedade em grupos de microcrédito comunitário no Burundi, onde alguns membros – que não conseguiram pagar, no prazo devido, seus empréstimos feitos para cobrir calamidades familiares – foram ajudados por outros. O pároco de uma comunidade no Burundi, quando lhe expliquei o nosso modelo de microcrédito comunitário, disse: “É a mesma experiência das primeiras comunidades cristãs!”.
Entre os projetos concluídos e em andamento, há algum que você gostaria de contar?
Estão impressos na minha memória o da Indonésia, na província de Aceh, e o do leste do Sri Lanka, após o desastroso tsunami de 26 de dezembro de 2004. Eram áreas de guerra civil e, na Indonésia, os membros do Movimento conseguiram conquistar a confiança e realizar projetos de revitalização e atividades geradoras de renda. No Sri Lanka, conseguimos reunir budistas, hindus, muçulmanos e cristãos.
E mais recentemente?
Há uma experiência muito encorajadora com jovens envolvidos em cursos de cidadania ativa na Síria: meninas e meninos que cresceram em um sistema no qual essas experiências foram muito difíceis. No caos da guerra civil, encontrar jovens com um diploma, cristãos e muçulmanos dialogando uns com os outros foi, para mim, um sopro de esperança. Todos se sentiam sírios e se dedicavam ao bem do próprio país, acima de qualquer filiação religiosa.
Igualmente impactantes foram as histórias de perdão e reconciliação ouvidas no Burundi, onde o assassinato de membros da família afetou para sempre a vida de quase todas as famílias do país.
Histórias fortes, mas também de esperança.
Como uma de Goma, onde a corrupção política se soma à destruição de infraestruturas e outros condicionamentos pesados da guerra pelo controle da riqueza mineral. Em um contexto tão caótico, foi criada uma cooperativa para empregar pessoas com deficiências físicas e um clube esportivo paralímpico.
Qual é o modus operandi da AMU?
Primeiramente, a escuta e a atenção respeitosa: encontrar soluções com os protagonistas dos projetos, em um processo participativo que também inclui as autoridades civis. Nossa abordagem sempre foi caracterizada pelo apoio dos grupos locais, em vez de enviar especialistas ou voluntários do exterior para dirigir os projetos. Para essa experiência de “crescer juntos”, é essencial respeitar os tempos e a trajetória de cada um: não pretendemos solicitar decisões, mas esperar que elas sejam plenamente maduras e compartilhadas. Acompanhamos a caminhada de modo discreto, sem substituir os protagonistas locais. A confiança e a transparência recíproca são condições imprescindíveis.
Parece-me que esse seja o relacionamento verdadeiro.
Escuta e confiança recíproca para construir protagonistas ativos, não beneficiários passivos. Treinamento técnico e profissional, combinado com o desenvolvimento de todas as dimensões da pessoa. Parceria horizontal e fortalecimento das capacidades de associações e grupos locais, vínculos e trocas de experiências entre grupos e comunidades nas quais os projetos são realizados e onde são apoiados por ações de solidariedade.
Muita coisa!
Para nós, porém, também é fundamental a dimensão espiritual, que frequentemente gera encontro e valorização entre pessoas de religiões diferentes. Experimentamos o valor do diálogo inter-religioso e os seus frutos na dimensão social e civil.
[1] Do ut des: expressão latina que significa “Dou para que dês”.

Outro projeto da AMU está no Equador, na província de Esmeraldas, com alta taxa de pobreza.
É chamado de “Sunrise” (“Nascer do Sol”) para evocar a esperança de um novo começo. É um curso formativo que começa no trabalho, para oferecer treinamento empresarial a jovens agricultores que já sustentam as atividades produtivas de suas famílias. Graças ao treinamento recebido, foram lançadas três atividades de empreendedorismo coletivo, capazes de criar valor agregado aos recursos locais de coco, cacau e criação de animais: matérias-primas transformadas em produtos para o mercado local. Paralelamente, os mesmos jovens participam de atividades formativas e práticas de proteção ambiental. Essa parte do projeto nasceu do pedido deles: a proteção da natureza é essencial para eles, em vista do futuro de suas comunidades.
A AMU está imersa nesse projeto?
“Sunrise” reflete plenamente o estilo da AMU: começar pelas pessoas, escutar atentamente as necessidades reais das comunidades e construir juntos caminhos sustentáveis, capazes de gerar mudanças reais e duradouras ao longo do tempo.
Há também um projeto em Burundi.
O projeto “Água, fonte de vida e desenvolvimento”: está sendo realizado na província (muito pobre) de Cibitoke. Lá, o acesso a água potável é historicamente quase inexistente. Mulheres e crianças precisam percorrer quilômetros para chegarem a nascentes frequentemente contaminadas, com sérias consequências para a saúde, acesso à educação e qualidade de vida. Dessa escuta nasceu o projeto, desenvolvido em colaboração com parcerias do local, CASOBU, para restaurar a dignidade e o futuro das comunidades rurais.
Como vocês agem nesse caso?
Reabilitando ou construindo uma rede hídrica de mais de 25 km, restaurando nascentes, instalando reservatórios, fontes públicas e latrinas ecológicas, além da formação da comunidade para a gestão sustentável da água.
Não se trata apenas da infraestrutura técnica, certo?
É principalmente um processo comunitário com muitas obras realizadas diretamente pelos moradores, que se tornam os guardiões daquele recurso.
É mais um projeto paradigmático da AMU, concorda?
Porque engloba os pilares da AMU sobre a centralidade de direitos fundamentais, como água, saúde, educação, trabalho e condições para uma vida digna. É fundamental o envolvimento ativo das comunidades, de acordo com uma visão integral do desenvolvimento humano.
Começando pelo bem primário: a água.
Que se torna um vetor de saúde, educação, trabalho e redenção social. A previsão é que esse projeto alcance mais de 21 mil pessoas, mas são muito mais as que foram protagonistas de outros projetos semelhantes ao longo dos anos.
Qual é a relação da AMU com as instituições?
Seja com entidades públicas ou privadas, a AMU não se apresenta como uma mera solicitante de financiamento ou uma agência técnica, mas busca construir parcerias para vivenciar a reciprocidade e o enriquecimento que advêm do contato direto com as comunidades onde os projetos são realizados.
Resumindo o trabalho da AMU, podemos dizer que vocês não levam o peixe para quem está com fome, mas ensinam a pescar?
É um ditado muito comum, mas a “nossa” maneira de pescar nem sempre é a mais adequada: a abordagem ocidental foca na eficiência e no retorno dos investimentos. Em outros contextos, o que importa são os relacionamentos e a capacidade da comunidade de gerar e manter laços de solidariedade entre as pessoas e com a natureza. Por isso, precisamos aprender juntos qual é a melhor maneira de pescar. Nós também saímos enriquecidos, e isso nos ajuda a experimentar estilos de vida mais sóbrios, mais respeitosos com os ritmos naturais.
Que emoção representa o nascimento de um novo projeto?
As sensações de que mais me recordo são as dos primeiros encontros, quando ainda não estava claro o que podia ser feito. A partir do debate e do estudo do contexto, definimos gradualmente qual projeto pode ser realizado. Ao final desse caminho, que não é curto nem linear, chegamos ao texto do projeto e ao acordo entre as partes. É uma etapa importante. Depois, é claro, as reuniões de avaliação intermediária e final são as mais bonitas e encorajadoras, com a alegria das pessoas pelos resultados alcançados.

Vocês colaboram com muitos países, sob a bandeira do seu acrônimo: “Mundo Unido”.
É uma consequência do espírito absorvido pelo Movimento dos Focolares: o tema da unidade é a característica, e tentamos incorporá-lo em nosso contexto. O mundo unido, que queremos ajudar a criar, não tem uma cultura dominante e não aceita áreas ou povos que defendam privilégios ou concessões de poder. Mais do que um lugar, é um estado em que cada pessoa se sente um membro ativo e construtor da própria comunidade e da família humana, vendo e reconhecendo nos outros o que espera que vejam e reconheçam em si mesmos, em sua essência mais íntima.
Vocês atuam em educação, saúde, trabalho e emergências. Como conseguem agir em tantas direções?
Em 40 anos de experiência, acumulamos competências que continuam sendo enriquecidas com a contribuição de novas pessoas. Fico feliz em notar que atualmente, na nossa equipe, há pessoas da Itália, Brasil, Paraguai, Uruguai, Serra Leoa, Jordânia e Ucrânia. Com habilidades e experiências diversificadas. Além disso, há a capacidade dos nossos parceiros locais de desenvolver habilidades específicas, que se tornam herança comum. Devo também enfatizar a importância da contribuição da Educação para a Cidadania Global, que é um dos pilares da ação da AMU e está ativa em nossos contextos junto a escolas, grupos de jovens, comunidades educacionais etc.
Que relação a AMU constrói com os temas do diálogo e da paz?
Dialogamos com todas as partes interessadas ligadas a um local e a uma proposta de projeto. Mas indiretamente, também ao diálogo intercultural e inter-religioso, entre gerações, povos ou culturas diferentes. No que diz respeito à paz, sentimos um forte chamado a agir na dimensão do planejamento, que envolve principalmente a ajuda humanitária em tempos de guerra ou de desastre (graças às comunidades do Movimento espalhadas pelo mundo), e no campo do testemunho, da denúncia e da informação. Por essa razão, a AMU deu espaço e apoio ao Projeto Living Peace Internacional, que assim pôde se fortalecer e expandir.
Para concluir, uma reflexão sobre o mundo unido hoje, em meio a guerras e violência desenfreadas. Quão difícil é para a AMU trabalhar em um clima assim? Mas quanta vontade essa dificuldade desperta em vocês de reagir, de nutrir a esperança e a bondade?
As dificuldades não faltam, e é doloroso ver a perda de esperança em tantas pessoas e povos que foram forçados, por anos, a sofrer guerras e violência. Penso em nossos amigos sírios, libaneses, palestinos, congoleses e ucranianos. Por outro lado, porém, vemos em alguns deles uma capacidade de resiliência e coragem, apesar dos inúmeros golpes recebidos.
De que modo?
Eles conseguem olhar além da própria dor e se preocupar com as necessidades daqueles que estão ao redor. Lembro-me de uma mulher que conheci no ano passado, em Beirute. Enquanto ajudava compatriotas deslocados, ela recebeu um aviso no celular, informando que teria que deixar sua casa em poucos minutos. Tudo o que restava do prédio onde ela morava era uma montanha de escombros. Toda a sua vida estava soterrada ali: livros, lembranças queridas, pertences pessoais.
Mas?
Ela continuou trabalhando para ajudar seu povo, e esse testemunho vale mais do que mil palavras.
