Comunicação e mídia

70 anos de Città Nuova, uma revista “na fronteira entre razão e mistério”

by Edoardo Zaccagnini

70 anos de Città Nuova, uma revista “na fronteira entre razão e mistério”
Copyright - Citta Nuova

“A Città Nuova existe para prestar um serviço humilde e livre, no sentido de ser independente dos objetivos de dinheiro e poder. Um serviço de informação, formação, pesquisa, tendo no coração o bem da humanidade.

A revista Città Nuova, uma das parceiras de United World Project, celebra este ano um aniversário importante: os seus 70 anos. United World Project tem o prazer de dar as felicitações com uma entrevista ao seu diretor Giulio Meazzini neste periódico (expressão do Movimento dos Focolares), com o qual compartilha valores, direcionamento e princípios.

Giulio Meazzini
Giulio Meazzini

Giulio, como nasceu essa grande aventura?

Em julho de 1956, nas montanhas Dolomitas italianas, durante a Mariápolis (congresso de verão do Movimento dos Focolares). Desde aqueles primeiros tempos, Chiara Lubich intuiu que sem um jornal não poderia acontecer uma revolução. Sem um pensamento que circule, questione, construa cultura, não pode haver mudança. Sem uma reflexão crítica sobre o mundo, não se constrói uma comunidade capaz de compartilhar valores e objetivos comuns. A revista foi criada para manter ligadas as pessoas que compartilhavam a espiritualidade da unidade, mas imediatamente abriu-se ao mundo, eclesiástico e civil.

Chiara Lubich intervinha diretamente?

Ela mesma escrevia os editoriais, de próprio punho. Ela intervinha, discutia, propunha, explicava. A caneta se tornou a voz dela, a ferramenta com a qual expressava as intuições do carisma. À medida que Chiara iluminava, com o seu pensamento e o seu carisma, novas dimensões – da economia à política, da cultura à saúde –, as palavras contidas na revista traduziam essa trajetória com uma linguagem acessível a todos. Ao enquadrar o porquê da existência da Città Nuova, “a primeira obra da Obra”, Chiara explicou que a revista deve ser direcionada para dentro (para os membros do Movimento, a fim de mantê-los ligados e fazer a comunidade crescer, portanto, um periódico “nosso e ideal”) e direcionado para fora, a fim de levar a todos a cultura da unidade, portanto “universal”.

Quais são os pontos fixos dos quais a Città Nuova jamais poderia prescindir?

Alguns meses atrás, respondendo a um leitor, escrevi que a raiz da Città Nuova está no Evangelho, esse é o nosso ponto fixo. Ao mesmo tempo, uma parcela significativa dos nossos leitores não é cristã ou não tem referência religiosa, portanto, o aspecto laico também é importante para nós. Estamos na “fronteira” entre razão e mistério. Uma posição que às vezes é muito desconfortável em tempos de polarização, mas esse é o nosso lugar específico: estar na rachadura entre visões diferentes de mundo, sem fugir ou escolher imediatamente um dos dois lados.

Atenção para com o outro, portanto…

Investigar e compreender a realidade significa escutar o outro, fazer um esforço para entender o que move aqueles que pensam diferente de mim, quais são seus valores, que sempre existem, ou seus medos. Ao final do diálogo, cada um fará sua escolha conforme a própria consciência, mas mesmo que continuemos com ideias diferentes, cada um terá um pedaço do céu do outro dentro de si, por isso o olhará sem ódio, com um pouco de simpatia e misericórdia.

Outros pontos fixos da CN?

Città Nuova não é do diretor ou da equipe editorial. Città Nuova é a expressão de uma comunidade que não quer viver na própria bolha, defendendo-se dos “outros” ao redor, mas que deseja dialogar, contaminar-se, acolher, semear paz. A revista oferece uma visão do mundo gerada por uma comunidade, por uma experiência espiritual compartilhada, com um pensamento necessariamente aberto, inquieto, rico em imaginação. Uma das consequências é que entre aqueles que leem e aqueles que escrevem para Città Nuova existe uma amizade, uma intimidade secreta.

Existem ainda outros pontos fixos para CN?

Um terceiro ponto é que depende também de nós se o mundo caminha rumo a uma civilização do amor ou rumo à incivilidade do egoísmo sistematizado. Para superar esse desafio, é necessário homens e mulheres-mundo, capazes de “amar a pátria dos outros como a própria”. Por isso, contamos com uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo todo, que nos trazem as sensibilidades, os valores e os pontos de vista das diversas culturas, vivendo nos lugares sobre os quais falam. Dessa forma, podemos nos compreender e viver uns pelos outros.

Quão importante é o tema do diálogo para CN?

Começo por mim: posso dizer que, como diretor, fui “construído” pela estima (e pelas críticas) dos redatores e leitores, e fico feliz com isso. E feliz também com o diálogo que existe na equipe de redação e com os especialistas, com os quais sempre discutimos temas “quentes”. Sem falar na Correspondência dos leitores, que para mim é um termômetro precioso da “sintonia” que existe entre quem escreve e quem lê. Ou seja, não existe um “pensamento único” da Città Nuova. Há uma equipe editorial, dentro da qual existem visões diferentes sobre os temas (mesmo que apenas por questões de idade) e um círculo de colaboradores, cada um com a própria perspectiva. Existe uma comunidade formada por pessoas que raciocinam com as próprias cabeças e sensibilidades.

Isso já é diálogo…

O papel da Città Nuova é fornecer aos leitores diversos artigos e reflexões, possivelmente de sensibilidades diferentes, pois em cada um existe um pedaço de verdade, sem omitir o próprio ponto de vista. Assim, todos podem formar uma opinião fundamentada. Acreditamos na capacidade dos leitores de avaliar com consciência. Na escolha dos artigos, preferimos clareza, análise aprofundada, estilo não agressivo, voltado ao diálogo, além da respeitabilidade do autor e do entrevistado.

Outro diálogo…

Também temos a sorte de fazer parte de um Movimento que tem como um dos pontos fixos os “diálogos”: dentro da Igreja Católica, entre Igrejas Cristãs, entre religiões; com pessoas sem referência religiosa e com a cultura. Procuramos promover esses diálogos na revista, no aplicativo CN e no nosso site, bem como nos outros 6 periódicos que publicamos: Big, Teens, PassaParola, Nuova Umanità, Ekklesia, Vangelo del giorno.

Qual é a relação entre a realidade, inclusive a realidade dramática (que um jornalista não pode negar) e a esperança que dá força para enfrentar essa mesma realidade?

Gostaria de ressaltar estas palavras de Chiara, de 17 de maio de 1968: “É absolutamente necessário que a ideia desapareça no fato. Não devemos criar um jornal de opinião. A opinião deve desaparecer sob os temas discutidos, ou seja, a opinião deve estar em quem escreve, que não deve fazer pregação”.

Como esse pensamento é aplicado?

Estamos inseridos no debate sempre atual sobre a profissão de jornalista, o qual não deveria confundir o seu papel com o de um ativista, mas, antes de tudo, investigar e compreender a realidade, para ajudar o leitor a construir a própria visão de mundo.

Sendo assim, antes de tudo, devemos denunciar a mentira, a brutalidade, a violência desenfreada, a hipocrisia que assola o mundo. Mas não podemos parar por aí. Devemos nos tornar um ponto de referência no compromisso com a paz, a justiça, a família e a informação desarmada, na perspectiva da fraternidade universal.

Como Città Nuova se relaciona com os temas do bem e do mal, com a presença deles no mundo? Como lidam com isso?

Primeiramente, eu diria que não devemos negar a realidade, mas encará-la. Inclusive o mal, investigando as causas e as possíveis soluções, sem esmorecer. Na revista, no site e no aplicativo, vocês podem encontrar uma vasta gama de artigos, entrevistas, dossiês, reportagens especiais, análises aprofundadas que abordam diversos temas, dando voz tanto a especialistas e profissionais, quanto a relatos de pessoas que vivenciam os acontecimentos atuais em primeira mão. O mal parece mais eficaz, descarado e implacável a cada dia. Nós nos sentimos impotentes. Dá vontade de desistir e de nos refugiarmos em um buraco.

Copyright - Citta Nuova
Copyright – Citta Nuova

Mas?

Não podemos, ao menos aqueles que leem (ou escrevem) a Città Nuova. Ainda é necessário alguém que acredite que a história tem um significado e que a humanidade tem um destino que não termina na autodestruição. Então, vamos continuar a dar a nossa contribuição para construir um mundo mais humano, com o coração e a mente, com o nosso estilo de vida e a nossa cultura. Uma sociedade onde beleza e paz são palavras mais importantes do que morte e ódio. Em particular, Città Nuova busca enriquecer a imaginação dos seus leitores com “palavras fascinantes”, com histórias (reais) de beleza, bondade e justiça, com entrevistas e artigos realistas, que, no entanto, não deixam de reconhecer o bem que existe no mundo.

Não à resignação, portanto…

Não nos resignamos a ter em nosso horizonte mental apenas pessoas beligerantes ávidas, ditadores paranoicos e aqueles que odeiam em série. Se queremos mudar o mundo, antes precisamos imaginá-lo novo, honesto, cheio de conforto, bondade e calma. Aliás, alguém disse que onde uma ideia passa, mais cedo ou mais tarde a história passa. E mesmo que sejamos pequenos, vivemos um carisma forte que ainda não expressou grande parte do seu potencial. Gostaria de acrescentar duas citações.

Com certeza.

A primeira é da escritora católica Flannery O’Connor, que nos lembra que a aventura humana se desenrola no “território do diabo”, um teatro do prazer de agir cruelmente, por isso é preciso um olhar muito atento para perceber as “intrusões quase imperceptíveis da graça”.

A segunda?

Uma das primeiras companheiras de Chiara Lubich, Luminosa, repetia: “Vamos continuar a jogar”. Para aqueles que têm fé, isso significa amar e colaborar com “um Deus que, por amor, criou tudo e escondeu o amor por trás das aparências de morte e de dor”. Para aqueles que não têm referências religiosas, continuar a jogar significa apostar novamente na capacidade da família humana de se redimir e melhorar.

Na sua opinião, quão importante é que, ao narrar a realidade, haja a tentativa de alimentar a esperança?

Como sugere uma leitora, Cecilia Tumiatti, a Città Nuova existe para oferecer um serviço humilde e livre, no sentido de ser independente dos objetivos de dinheiro e poder. Um serviço de informação, formação, pesquisa, tendo no coração o bem da humanidade, em diálogo entre pessoas e culturas, partindo de um ponto de vista “inédito”, trinitário, em busca de novas visões e perspectivas positivas. Sem nunca se cansar de buscar vestígios e sinais de esperança em um caminho comum com toda a humanidade.

Parece-me um compromisso que já traz esperança por si só…

Guglielmo Boselli, diretor da Città Nuova por muito tempo, disse que “deveríamos ser capazes de mostrar, por meio da revista, o desígnio de Deus para cada povo e para toda a humanidade, tendo uma chave de leitura bem precisa: esse evento, esse personagem contribuem para a realização de um mundo mais unido ou é um obstáculo para isso?”. Pois bem, Città Nuova, imersa com seus leitores nos complexos desafios de hoje, oferece o próprio ponto de vista com o desejo de dar esperança àqueles que estão em busca de significado e, na medida do possível, de fazer o mundo sorrir.