Elena Gentili, de Save the Children: “A nossa responsabilidade é que a coragem das crianças não seja deixada de lado”
Elena Gentili, de Save the Children Itália, analisa o trabalho humanitário em emergências, a defesa e a importância da educação e da inclusão social para garantir os direitos das crianças.
United World Project conversou com Elena Gentili, responsável pelas áreas de defesa de direitos e políticas públicas da Save the Children Itália, uma organização com mais de 100 anos de história e presença em mais de 100 países, que se inspira no legado de sua fundadora Eglantyne Jebb: “Não há nenhuma impossibilidade intrínseca em salvar as crianças do mundo. Isso só é impossível se nos recusarmos a fazê-lo” e “cada geração de crianças oferece à humanidade uma nova chance de renascer de suas ruínas”.
Save the Children: Sobreviver, Aprender e Estar protegido
Elena Gentili enfatiza que a missão da organização está claramente projetada no futuro: “A nossa orientação se expressa em três grandes conceitos que podem ser resumidos nas metas de transformação – que ela chama de breakthroughs (pontos de virada) – para 2030: Survive, Learn, e Be protected (Sobreviver, Aprender e Estar protegido). Queremos que nenhuma criança morra por causas evitáveis antes dos 5 anos e que todas elas tenham acesso a uma educação de qualidade em um mundo onde a violência contra crianças não seja mais tolerada”.

Elena, em que medida essas frases refletem a abordagem de Save the Children?
Muito. Hoje, mais do que nunca, elas são fundamentais. A primeira fala de responsabilidade e da nossa escolha de continuar salvando crianças no mundo. Ela nos diz que as condições em que as crianças vivem não são inevitáveis. Pobreza, violência, exclusão, falta de acesso à educação não são fruto do acaso, mas são resultado de decisões e de políticas.
Então, podem ser mudadas?
Sim. E por essa razão Save the Children não se limita a intervir nas consequências, mas atua nas causas por meio de programas, ações e projetos locais, com pesquisas e diálogo com as instituições. Desenvolve ações em defesa dos direitos e campanhas em prol de mudanças sistêmicas nas políticas, nas normas e nos financiamentos que afetam a vida de crianças e adolescentes a longo prazo. Essa abordagem faz parte da nossa atuação em todos os países: no enfrentamento da pobreza educacional, na proteção de menores migrantes, nos conflitos armados, nas crises humanitárias, na prevenção da violência e da crise climática. Trabalhamos para garantir que a nossa experiência se traduza em escolhas mais justas.
E a segunda frase?
Ela fala mais sobre perspectiva. Sobre o futuro. Mesmo nos contextos mais difíceis, as crianças não são apenas sujeitos vulneráveis a serem protegidos, mas detentoras de direitos, com voz própria e aspirações. Elas podem contribuir para projetos de mudança de suas vidas, tanto no presente quanto no futuro. Para Save the Children é essencial trabalhar não apenas “para”, mas “com” as crianças e os adolescentes, ouvindo-os, apoiando o protagonismo deles. Isso significa oferecer-lhes espaços de participação, a fim de que possam fazer parte dos processos de tomada de decisão.
E as duas frases de Jebb são complementares?
Elas descrevem muito bem a abordagem da Save the Children: não aceitamos que injustiças sejam inevitáveis e investimos em um futuro diferente. Elas resumem o legado de Jebb: transformar a indignação em responsabilidade e a responsabilidade em ação.

A Save trabalha por mudanças rápidas, mas duradouras?
A capacidade de reação é fundamental na emergência, mas não é suficiente. É importante manter dois horizontes temporais: proteger os direitos das crianças hoje, nas emergências e nas crises, criando as condições para que essa proteção perdure. A presença de longo prazo nos contextos é fundamental: permite conhecer as comunidades e as instituições, assim como as vulnerabilidades e os pontos críticos que podem se transformar em crises ou conflitos.
Um duplo objetivo?
Garantir ajuda vital e manter a continuidade dos serviços educacionais, de saúde e de proteção (inclusive psicológicos) fundamentais, numa perspectiva de reabilitação e reconstrução. A emergência e o depois não devem ser pensados como separados. A Save, analisando os contextos, antecipando os riscos e preparando-se para as crises, pode agir rapidamente pensando no que virá depois. É um princípio fundamental: voltar à normalidade não significa simplesmente reconstruir o que existia antes, sobretudo quando essa normalidade já deixava muitas crianças excluídas. São necessários sistemas mais inclusivos e acessíveis, que funcionem na própria crise.
Que papel a sociedade civil desempenha nisso?
Fundamental. Organizações, associações e comunidades nos territórios são protagonistas da mudança: ao conhecer o contexto e as dinâmicas sociais em profundidade, têm acesso ao território como nenhuma organização externa. Hoje, isso é ainda mais importante, dado que, nas crises, o espaço humanitário se restringe, e o acesso para os operadores internacionais é mais complexo.
Adicionando a isso o trabalho de defesa dos direitos, certo?
Sim, ele é necessário para transformar a experiência operacional imediata e contínua em mudança estrutural. A presença junto às famílias e crianças nos mostra onde os sistemas não funcionam, quais direitos não são garantidos e por quê. A partir daí, coletamos dados, elaboramos propostas de políticas públicas e dialogamos em vários níveis, a fim de criar um contexto que evite a crise humanitária. Não basta oferecer um serviço a uma criança se as condições que geraram sua vulnerabilidade permanecerem inalteradas. Com ações de defesa dos direitos, tentamos influenciar normas, políticas, financiamento e práticas, indo além de projetos individuais.
Já mencionamos a escuta. Quão importante ela é?
Escutar crianças, jovens, famílias e comunidades é fundamental. Para ser sustentável, a resposta deve começar pelas novas gerações.

A infância é um patrimônio de recursos, mas vulnerável. Em que medida as guerras ou as catástrofes afetam as crianças?
Hoje, as crises – pobreza, insegurança alimentar, conflitos, mudanças climáticas – se sobrepõem e se alimentam mutuamente, com consequências para toda a vida. As guerras estão entre as ameaças mais dramáticas, também porque são cada vez mais longas e travadas em áreas densamente povoadas, inclusive em espaços de convivência civil. Elas deixam consequências sobretudo nas crianças, a começar pela perda do acesso à educação, que também inclui a socialização. O impacto não é medido apenas pelos mortos e feridos, mas também pelo deslocamento e a perda de pontos de referência. Nosso relatório mais recente revela que 520 milhões de crianças vivem em áreas de conflito. Mais de 1 em cada 5! A previsão é de que, em 2026, mais de 200 milhões de crianças precisem de assistência humanitária. O plano humanitário da Save the Children, em 2026, visa alcançar 17,8 milhões de pessoas, incluindo 10,1 milhões de crianças em 45 países, por meio de ajuda humanitária e fortalecimento da liderança das comunidades locais, a fim de investir mais na prevenção.
Inclusive contra a desigualdade…
A questão da desigualdade afeta muito as crianças, tanto em diversos países quanto dentro do mesmo país. Existe o risco de perda de oportunidades para quem nasce em famílias mais pobres ou em subúrbios marginalizados, em áreas isoladas ou afetadas por conflitos. Uma crise tende a aumentar as desigualdades e comprometer o acesso aos serviços. Nós trabalhamos para garantir que isso não aconteça. Para nós, a paz não é apenas ausência de guerra. Uma paz duradoura é construída antecipadamente, reduzindo desigualdades, fortalecendo a coesão social e criando oportunidades de participação, para que as pessoas se sintam reconhecidas, ouvidas e parte de um futuro comum.
Sem esquecer o problema da fome.
153 milhões de crianças enfrentam a insegurança alimentar com consequências de longo prazo. Quando falamos de crises multidimensionais que afetam as crianças, precisamos olhar tanto para as necessidades imediatas quanto para o que vem depois. É por isso que trabalhamos pela coesão social e pela paz. O desenvolvimento de sistemas justos e a distribuição equitativa das oportunidades criam as condições essenciais para uma sociedade mais inclusiva e sólida, capaz de enfrentar crises.
Save the Children enfrenta muitos momentos dramáticos. Então, hoje, também as mudanças climáticas?
É um trabalho central, dado que os direitos das crianças agora são afetados. O nosso relatório menciona aproximadamente 1 bilhão de crianças – metade da população infantil global – em países considerados de risco extremo. Elas não contribuíram para as causas, mas sofrem as consequências, hoje e amanhã. As mudanças climáticas são um multiplicador de crises e um amplificador das desigualdades. Outro relatório mostra que 774 milhões de crianças enfrentam pobreza multidimensional com altos riscos climáticos.
Como vocês estão atuando?
Para responder efetivamente a esse problema, precisamos avançar em vários níveis nos diversos países. E, mais uma vez, o protagonismo dos jovens é fundamental: a voz e a mobilização deles para os processos de tomada de decisão sobre políticas climáticas. Por isso, desenvolvemos programas educacionais para ajudar a reconhecer os riscos e a desenvolver competências que permitam propor mudanças. Daqui a poucas semanas, participaremos da COP31 pela quinta vez, vinculando a questão climática aos direitos das crianças, defendendo a aceleração da redução das emissões para manter o objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 grau. Um grande desafio!
Podemos dizer que hoje a infância está em risco até mesmo nos países mais desenvolvidos?
A riqueza de um país não determina em que medida os direitos de todas as crianças estão garantidos. Não basta olhar para a média, mas é preciso observar como os direitos estão distribuídos. Na Itália, por exemplo, existem disparidades sociais muito acentuadas e cada vez mais evidentes: desde a pobreza educacional até as questões relacionadas ao bem-estar psicossocial e à saúde mental dos adolescentes, passando por novas formas de violência e exploração, inclusive online, até as condições dos menores migrantes, que lutam para alcançar uma verdadeira inclusão social. A Save the Children está presente na região para melhorar o acesso aos serviços e identificar necessidades, além de realizar pesquisas e coletar dados úteis para a reflexão sobre as causas das desigualdades. Os direitos não podem ser considerados conquistas adquiridas de uma vez por todas, em nenhum país.
O que é exatamente pobreza educacional?
Não se trata apenas de ter ou não a possibilidade de ir à escola, mas a falta de oportunidade de aprender e desenvolver as próprias capacidades, aspirações e talentos. De construir relacionamentos e participar da vida social. De imaginar e construir o próprio futuro. A condição econômica da família e o território onde se vive influenciam essas oportunidades e, consequentemente, a disponibilidade e a qualidade dos serviços. O risco da pobreza educacional é que as condições de partida da criança determinam, cedo demais, suas possibilidades futuras.

Como vocês atuam nesse sentido?
Um exemplo são os Pontos de Luz, criados em 2014. São espaços que oferecem uma ampla gama de oportunidades educacionais, com 27 unidades em 20 cidades e 15 regiões da Itália. Nesses espaços, são oferecidos gratuitamente apoio aos estudos, oficinas, atividades esportivas e culturais, além de oportunidades de interação social. O trabalho também envolve famílias. Até agora, já alcançamos cerca de 72 mil crianças e adolescentes. Como sempre, porém, também trabalhamos para mudar as condições que levam à desigualdade e, nesse sentido, a escola desempenha um papel central.
De que maneira?
Por exemplo, por meio dos nossos dossiês “Back to School” (“Volta às aulas”), mediante os quais analisamos a situação das escolas italianas sob uma perspectiva específica, dando destaque especialmente à voz de alunos, professores, educadores e comunidades educacionais. A edição de 2025 – Chiamami col mio nome (Pode me chamar pelo meu nome) – concentrou-se especificamente em estudantes com histórico migratório. Mais uma vez, é preciso trabalhar para reduzir as desigualdades e investir nas escolas públicas como ferramenta capaz de promover efetivamente essa transformação, favorecendo a inclusão e a participação.
Parece-me que a questão dos migrantes é central para a Save the Children
Trabalhamos há muitos anos com menores que necessitam de proteção e garantia, mas cuidamos também de menores estrangeiros desacompanhados. Nós nos baseamos no “melhor interesse da criança”. Para nós, esse é um princípio fundamental, um farol. Atuamos em duas frentes: atendimento direto nos pontos de chegada e trânsito, ações de defesa dos direitos para fortalecer regras, políticas e sistemas de proteção. Estamos presentes em pontos de desembarque no Sul da Itália e em algumas áreas fronteiriças terrestres, oferecendo informações, apoio e proteção direta para crianças, adolescentes e famílias que enfrentaram viagens longas e traumáticas. Na cidade de Ventimiglia, abrimos um espaço de escuta e de apoio para menores desacompanhados. Paralelamente a esse trabalho, graças a parcerias estratégicas, realizamos projetos como o Civico Zero.
Sobre o que é?
Centros diurnos em quatro cidades italianas: Roma, Milão, Turim e Catânia. São pontos de referência para menores estrangeiros desacompanhados e jovens migrantes. Para nós, esses jovens não são um problema a ser gerenciado, mas pessoas com habilidades, aspirações e energias que podem representar uma riqueza para o país e para a comunidade, se forem criadas condições para que possam expressá-las.
Voltando à defesa dos direitos?
Sob esse ponto de vista, um passo fundamental foi a Lei 47 de 2017, a chamada Lei Zampa, que apoiamos fortemente ao lado de outras organizações da sociedade civil. Em abril próximo, completam-se dez anos dessa lei, que representou um avanço significativo no reconhecimento de menores estrangeiros desacompanhados, antes de tudo, como menores; portanto, eles têm direitos como os outros. Ao longo dos anos, temos acompanhado de perto a atuação do Pacto Europeu sobre migração e asilo.
Como manter a esperança em um clima tão difícil?
Alguns números são impressionantes e desanimadores, mas para a Save The Children a esperança não é algo abstrato: é resultado de uma experiência concreta. Ela nasce de encontros, nasce quando uma menina consegue estudar mesmo nos contextos mais difíceis, ou quando outra menina desnutrida recupera peso e saúde, ou quando uma adolescente encontra espaços seguros, nasce quando alguém foge em busca de uma escola, daqueles que, mesmo sob as bombas, continuam imaginando um futuro diferente. O impulso mais forte por esperança vem das crianças e dos jovens. A coragem deles se torna a nossa coragem. A nossa responsabilidade é que essa coragem não seja deixada de lado. Mas a esperança sozinha não é suficiente, ela deve ser acompanhada de habilidades, coordenação e recursos, por pessoas dispostas a transformá-la. Eu me identifico com a frase citada no início, de Eglantyne Jebb: “Não há nenhuma impossibilidade intrínseca em salvar as crianças do mundo. Isso só é impossível se nos recusarmos a fazê-lo”.