A Odisseia, de Christopher Nolan: Ulisses e a necessidade de um novo amanhecer
Reflexões sobre paz, guerra, diálogo, violência, poder, encontro e “regra de ouro”, após assistir ao filme A Odisseia, de Christopher Nolan.
O Ulisses, de Christopher Nolan, em seu novo filme A Odisseia, não se sente um herói. Ele não é movido pelo desejo de retornar à pátria como vencedor. Não é o triunfante nem o líder que se regozijam dentro dele. Outros fantasmas invadem a mente desse Ulisses carrancudo, cansado e triste: são os pensamentos de um homem antes de serem os de um mito, são os sentimentos de uma pessoa do nosso tempo, frágil, desorientada, com um senso de beleza e justiça no mais profundo da alma, mas indistinto, turvo, fugidio, esmagado e ocultado pelos ídolos e pelo mal que se interpõem entre a vida e o desejo de plena humanidade.
A dor de Ulisses
O que fere o Ulisses de Christopher Nolan é a dor de ter visto de perto, por dentro, a guerra que mata homens e civilizações. O que enfraquece o personagem interpretado por Matt Damon é a violência que sepulta o diálogo, a troca de conhecimentos e o encontro. Com o agravante de ter ferido o inimigo com o engano, com a artimanha do cavalo, que não exalta o conceito de astúcia, mas alimenta de forma angustiante o remorso pela mentira e pela deslealdade.
A Lei de Zeus e a Regra de Ouro
O Ulisses de Nolan sofre em silêncio, cada vez mais consciente de que, sem o respeito por uma lei fundamental, o ser humano não pode ser feliz. Não vai a lugar nenhum. Ele se perde e desaparece, destruindo tudo ao seu redor.

Sem essa lei, o ser humano está perdido. Ele se encontra reduzido ao estado animalesco, que a feiticeira Circe personifica em uma das sequências mais perturbadoras e também eficazes do filme, em uma imagem clara e direta ao transformar os soldados em bestas.
Essa lei, no filme magnético de Nolan, é chamada de “lei de Zeus”, enquanto, na sabedoria de várias culturas e religiões, ela é considerada tão preciosa a ponto de ser definida como a “regra de ouro”.
É uma lei simples e antiga: “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”. Uma verdade tão profunda que, não por acaso, está escrita nos textos que fundamentam todas as religiões.
A pergunta de Ulisses
Essa lei se torna uma questão latente e uma dúvida dilacerante no instigante Ulisses/Odisseu, de Nolan. “Eu a respeitei?”, ele se pergunta. “Não!” Ele sabe que não. Reconhece ter violado aquela lei de Zeus que leva os homens a serem hospitaleiros e acolhedores, promotores de encontro e de trocas, de paz e de crescimento comum. Construtores da civilização.
O perigo do povo do mar
Quem não age assim, como Ulisses (à semelhança de Agamenon, que ataca os troianos por interesse pessoal, pelo prazer da dominação, muito além da questão de Helena), torna-se aquilo que o filme chama de “povo do mar”. Ou seja, conflito, invasão, ameaça que gera angústia, derramamento de sangue, divisão. É o exercício insano de poder que encontra, nessa Odisseia infiel a Homero (mas poderosa em muitos aspectos), uma síntese expressiva quando Ulisses e seus soldados são repelidos, destruídos, aniquilados, de modo cego e desumano, pelo povo dos Lestrígones: robôs sem alma.
Um pouco como Agamenon, escondido sob sua máscara escura e metálica. Gigantesco em sua armadura e “cego” quando os portões de Troia se abrem e a opressão começa a se espalhar.
O antigo e o novo Ulisses
Ulisses se vê dividido entre a necessidade e a memória de uma civilização que tem como fundamento a lei de Zeus e o impulso para uma guerra que leva à desumanização alimentada pelo exercício da força.

Lentamente, ele forma uma nova consciência durante a longa viagem de retorno, com Atena (Zendaya) frequentemente ao seu lado, enfrentando a perda de muitos dos seus companheiros, a começar por Euríloco.
É o dramático Nostos, que conduz à solidão e a uma espécie de coma emocional, marcado pelo esquecimento proporcionado pela ninfa Calipso, na ilha de Ogígia.
Após esse período de estagnação, de uma espécie de recuperação, Ulisses retoma o processo de reelaboração do passado e do futuro. A busca por sentido prossegue até a ilha de Ítaca, por meio da viagem interior de Ulisses/Odisseu, que passa também pelo diálogo com os mortos.
Ali, em uma das melhores sequências do filme, o protagonista redescobre a necessidade da memória dos outros. Percebe, com maior intensidade, o valor da vida daqueles que sofreram, daqueles que foram vítimas da violência por causa dele. Daqueles que, em nome da guerra absurda, pagaram com a própria vida. Ulysses sente que precisa retribuir a eles, e continua a se transformar.
O necessário novo amanhecer
É mais uma etapa da sua dolorosa travessia até o porto, onde ele considera necessário “um novo amanhecer que surgirá sobre o mundo mergulhado na escuridão”. E esse recém-desperto Ulisses parece nos dizer que não é o poder que salva o ser humano, não é a conquista, mas a unidade entre os povos, o olhar recíproco voltado para o bem comum, a consciência de que toda vida importa, deve ser defendida em sua dignidade e beleza, em sua fragilidade. Por meio da Regra de Ouro que abre o caminho da paz.

Por isso, Ulisses deixará Ítaca novamente, desta vez ao lado de Penélope (Anne Hathaway), para prestar homenagem às vítimas da violência e das atrocidades cometidas também por ele, na tentativa de construir um mundo novo que seja mais luminoso que o anterior.
O novo mar de Ulisses
Por meio da memória, ao lado da consciência e da dor, Ulisses se põe novamente a caminho. Sempre no mesmo mar, mas agora em outra direção: rumo a um caminho novo, precisamente na imensa planície de água que não deve ser o espaço de onde chega o mal em sua forma mais bruta e animalesca, mas a ponte sobre a qual os povos, com sua chegada, seus navios, seus desembarques, reúnam seus respectivos saberes, fundindo-os, multiplicando-os, enriquecendo-os.
O Ulisses de Nolan e o nosso tempo
Na grandiosa obra de Nolan, um homem novo luta para nascer e, com ele, talvez também novos – dessa vez positivos – povos do mar. Assim, o Ulisses do diretor inglês torna-se uma figura contemporânea em um mar – o Mediterrâneo, mas não apenas ele – que pode acolher ou repelir; em um tempo como o nosso, marcado por guerras que incendeiam tantos lugares do mundo e por vários e modernos Agamenons, prontos para atacar.
Um tempo em que cada um de nós tem a tarefa de fazer surgir o seu novo amanhecer. Todos os dias, onde puder, como puder, sempre que puder, como esse belo filme nos recorda à sua maneira.