Marcoluigi Corsi, representante da UNICEF no Líbano: “Começar pelas crianças une as pessoas”
Após trinta anos transcorridos em alguns dos contextos mais difíceis do mundo, Marcoluigi Corsi, representante da UNICEF no Líbano, faz uma reflexão sobre a proteção da infância, a esperança e a humanidade que resiste mesmo em meio à guerra.
Marcoluigi Corsi trabalha para a UNICEF há 30 anos. Ocupando diversos cargos, ele viajou por muitos países do mundo: Moçambique, Bolívia, Indonésia, Eritreia, Somália, Tanzânia e até Mianmar.
Hoje, ele é representante da UNICEF no Líbano, onde dirige a execução do programa nacional, fornecendo orientação estratégica e supervisão às operações da UNICEF em apoio a crianças, mulheres e jovens.
Seu trabalho na UNICEF: uma vida dedicada à proteção das crianças mais vulneráveis
Apesar da agenda lotada, Marcoluigi dedicou parte do seu tempo a nós, compartilhando sua longa experiência, por meio da qual observou as feridas do mundo, mas também as respostas humanas a tanto sofrimento. Conversamos sobre o trabalho da UNICEF a partir desta pergunta.
Marco, qual é a missão da UNICEF?
A UNICEF atua nas áreas da educação, da saúde e da proteção infantil. Trabalha para garantir às crianças acesso a água, alimentação e higiene. Atua para garantir que os direitos delas sejam respeitados e concretizados por meio de políticas públicas e recurso financeiros provenientes dos governos nacionais e locais. A UNICEF opera em diversos contextos, sempre em situações de emergência humanitária provocadas por desastres naturais ou conflitos.

Quando nasceu a UNICEF?
Nasceu imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, por meio de fundos emergenciais destinados à proteção da infância. Essa missão faz parte do nosso DNA e nos leva, ainda hoje, a estar presentes em tantos países quantos forem os lugares atingidos por emergências humanitárias.
Como a UNICEF se relaciona com as instituições?
O nosso trabalho está ligado à capacidade dos governos de responder às emergências: quanto maior é a resposta deles, mais eficaz é o nosso trabalho.
Qual é a realidade que a UNICEF vive atualmente no Líbano?
Uma dupla realidade. A primeira está ligada à conquista dos objetivos de desenvolvimento sustentável até 2030, em colaboração com instituições nacionais e locais. Isso envolve o desenvolvimento de políticas funcionais para a concretização dos direitos das crianças: educação de qualidade, acesso à vacinação, por exemplo.
E qual é a segunda realidade do Líbano?
Prestamos assistência humanitária a todas as crianças deslocadas, bem como às famílias delas, em decorrência do conflito. Fazemos isso em parceria com governos, com diversas agências da ONU e ONGs. Enfrentamos constantemente a profunda sensação de incerteza que todas essas pessoas experimentam todos os dias.
Como é a sua rotina diária no Líbano?
Como responsável pela UNICEF no Líbano, gerencio vários escritórios: um em Beirute, outros três no norte, no centro e no sul do país. Coordeno as diversas atividades para garantir sua eficiência. Paralelamente, há o trabalho direcionado à proteção das crianças afetadas pelos conflitos e de defesa do respeito às normas internacionais que as protegem. Mais uma vez, trabalhamos em conjunto com os governos e com as partes envolvidas no conflito. Garantir o respeito aos direitos das crianças, dos civis em geral, em um conflito, é sempre a parte mais difícil do nosso trabalho.
Poderíamos dizer que, em comparação com um desastre natural, por mais dramático e doloroso que seja, uma situação de conflito obriga as pessoas a conviver com uma espécie de brutalidade humana que torna a realidade que temos diante de nós ainda mais inaceitável?
A dor diante da perda e do sofrimento humano é intensa em qualquer situação, mas, em um conflito, existe o aspecto da violência, que torna tudo ainda mais difícil de suportar.
É como se, em uma guerra, comparado a uma catástrofe, houvesse uma ferida dentro da ferida?
Felizmente, mesmo em um conflito, a solidariedade não sucumbe, pois muitas organizações entram em ação. Diante de certas realidades, frequentemente nos perguntamos para onde foi a humanidade. É uma pergunta legítima quando vemos vidas, especialmente de crianças, esmagadas brutalmente pela violência da guerra. Ainda assim, tenho o privilégio de testemunhar, mesmo nesses momentos, o senso de humanidade se manifestando.
Marcoluigi Corsi
De que forma?
Quando vemos uma mãe percorrer quilômetros a pé para colocar seu filho em segurança, ou quando vemos pessoas acolherem os deslocados de forma extraordinária, isso é a humanidade sobrevivendo. Ver essas reações nos dá força para continuar e perseverar. Costumo dizer aos meus colegas que se concentrem nas pequenas coisas.
Por quê? Concentrar-se no quadro geral pode nos abater ou nos levar à resignação?
Concentrar-se no pequeno nos leva a perceber que podemos fazer algo, mesmo nas situações mais críticas. E isso dá esperança.
Dá esperança ao indivíduo e ao valioso trabalho da UNICEF como um todo?
Dá esperança à sua nobre missão, ao mandato conferido pela Assembleia das Nações Unidas: ser a voz das crianças e preservar a sua essência.
Como você definiria esse mandato?
Excepcional, maravilhoso. É isso que faz da UNICEF uma organização respeitada por todos e que me torna, após 25 anos trabalhando nela, uma pessoa profundamente grata.
Quando começou a sua história com a UNICEF?
Sempre me senti atraído pela dimensão humana e, depois de uma experiência inicial em ONGs, foi espontâneo aproximar-me das organizações das Nações Unidas. Então, conheci a UNICEF, que representou não apenas uma trajetória profissional, mas também um caminho de vida. Uma jornada que me colocou em contato com muitas realidades ao redor do mundo e me ensinou, antes de tudo, uma coisa.
O quê?
Que somos todos iguais. Que todos nós precisamos uns dos outros. Esse é o privilégio pessoal e interior de que eu falava antes. Evidentemente, essa jornada também é repleta de frustrações, sentimento de impotência e tristeza diante de tudo o que ainda precisa ser feito, dos inúmeros obstáculos a serem superados, das necessidades gigantescas e do sofrimento real com os quais é preciso lidar.
Entre os muitos lugares do mundo onde você trabalhou para a UNICEF, antes do Líbano, houve o Mianmar.
É um país que vem enfrentando conflitos internos há muitos anos, que inevitavelmente afetam a vida das crianças. Também em Mianmar, dentro de uma realidade muito complexa e difícil de resumir (eu nunca havia experimentado algo assim antes, apesar de já ter vivido outras situações de guerra), a lição humana foi enorme. Mais uma vez, o sentimento em relação ao que recebi é de gratidão.
Quanto tempo você ficou em Mianmar?
Três anos, durante os quais, além do conflito, houve dois ciclones e um terremoto. Ainda assim, vi a esperança em movimento. Em certas situações, deixamos de pensar em nós mesmos e percebemos como os seres humanos conseguem enfrentar situações extremamente difíceis com dignidade. A maneira como eles lidam repetidamente com um desastre torna-se uma grande lição de vida. Em determinadas circunstâncias, a resiliência pode ser anulada. Em vez disso, ela se fortalece.
Em meio a tanta complexidade dolorosa, quanto ajuda sentir-se parte da UNICEF?
Apesar de todas as dificuldades que mencionei, fazer parte de uma organização como a UNICEF traz grandes responsabilidades, mas também dá sentido às próprias ações. Permite deixar de ser espectador para tornar-se parte ativa de uma humanidade que pode fazer algo. Saber que o seu trabalho pode ajudar a proteger uma criança, ajudá-la a frequentar a escola, apoiá-la do ponto de vista psicológico, restaurar nela um vislumbre de esperança, isso é algo extraordinário. Penso nas crianças aqui no Líbano: as crianças de dois anos já viveram duas guerras. Em certos contextos, até mesmo pequenos progressos têm um valor imenso.
Essas crianças serão os adultos do futuro.
Sem dúvida, mas elas também são o presente que precisa ser protegido. É preciso fazer sempre o nosso melhor por elas.
Pelas suas palavras, fica claro que a UNICEF é um instrumento de paz e de diálogo.
Para garantir os direitos das crianças, é preciso haver paz. Começar pelas crianças une as pessoas e cria aquele diálogo que é sempre uma ferramenta para a paz. Por outro lado, quando paramos de dialogar, as primeiras vítimas são as crianças. A força da UNICEF reside em construir pontes. Nós mesmos, como dizia o Papa Francisco, somos chamados a ser pontes, e acreditamos que outra ferramenta é importante.
Qual?
Escutar. A nossa presença no terreno é escutar aqueles que encontramos. É se colocar no lugar do outro. A nossa credibilidade e capacidade de diálogo baseiam-se em uma neutralidade que nunca é sinônimo de indiferença. Na verdade, é uma postura que coloca sempre em primeiro lugar o interesse da criança.

Durante 30 anos na UNICEF, você atravessou as feridas do mundo, acumulando, como nos explicou, riqueza interior e sofrimento, devido ao contato com a dureza do mundo, mas também com a humanidade que sobrevive ao horror. À luz de tudo isso, dentro de você, hoje, há mais esperança ou resignação ao olhar para o futuro?
Enquanto pudermos fazer algo, há esperança. As próprias pessoas com quem nos relacionamos transmitem essa esperança, mostrando que, apesar de tudo, a humanidade continua viva. Às vezes, essa humanidade é feita de muitos fios invisíveis que, ainda assim, nos ligam uns aos outros. Há muitas situações difíceis no mundo, mas também progressos em curso, que é importante destacar.
Por exemplo?
Há menos crianças sem vacinação, e isso é muito importante. A taxa de escolarização aumentou. Há menos mortes por doenças infantis. São dados que recebem menos atenção da imprensa. Entenda-se: não quero minimizar os enormes problemas do mundo, mas reafirmar que existem razões para ter esperança, em meio ao imenso trabalho que ainda precisa ser realizado.
