Cidadania ativa e política

Mulheres na política, espaço no qual a discrepância de gênero é mais acentuada

Mulheres na política, espaço no qual a discrepância de gênero é mais acentuada
Colin Lloyd - Unsplash
Por Saadia Ajbaili

Em vez de adaptar as instituições para que espelhem a realidade da sociedade moderna, muitos sistemas políticos continuam a esperar que as mulheres se adaptem às estruturas criadas pelos homens. A questão não é se as mulheres têm um lugar na política, mas por que a sua representação igualitária é essencial para a saúde da democracia.

Um jovem que entra na política é frequentemente elogiado por sua ambição. Uma jovem que segue o mesmo caminho tem mais chances de ser definida como “muito emotiva”, “jovem demais” ou “muito inexperiente”. Mesmo antes de suas propostas políticas serem discutidas, a sua aparência, o tom de sua voz ou a sua vida privada já podem ter se tornado tema de debate público. Mais de um século depois que as mulheres conquistaram o direito de voto em grande parte da Europa, a política ainda não julga nem trata mulheres e homens segundo os mesmos critérios.

A representação feminina na política não se resume à igualdade: é um elemento essencial da democracia. Quando as mulheres são excluídas dos processos de tomada de decisão, a voz e a experiência de metade da sociedade ficam ausentes. A presença feminina no topo amplia a agenda política, traz mais atenção para questões como educação, saúde, cuidados infantis e direitos humanos, contribui para políticas mais inclusivas e eficazes. A sub-representação das mulheres na política não é apenas uma questão feminina, mas um problema democrático. Para alcançar mudanças reais são necessárias tanto reformas estruturais quanto um apoio maior às mulheres, para que ingressem e permaneçam em cargos de liderança política. Enquanto as mulheres não tiverem uma voz igual à dos homens na política, a democracia não poderá realmente representar a todos.

Por que entrar na política ainda envolve regras diferentes para as mulheres?

Historicamente, a política foi uma instituição dominada por homens. Embora as mulheres tenham lutado para fazer suas vozes serem ouvidas e conquistar seu lugar nas instituições políticas ao longo do último século, a realidade é que muitos dos obstáculos que elas enfrentam hoje não têm origem na falta de ambição ou de competência. Na verdade, são resultado de sistemas políticos originalmente criados sem levar em conta as experiências e perspectivas das mulheres.

Antoine Schibler - Unsplash
Antoine Schibler – Unsplash

Mulheres na política continuam enfrentando assédio, abuso online e offline, sexismo e falta de apoio institucional por parte dos colegas homens. Além dessas barreiras culturais, também persistem obstáculos estruturais. Na França, por exemplo, os prefeitos não têm direito à licença-maternidade. Políticas como essa tornam as carreiras políticas particularmente desafiadoras para as mulheres, especialmente para aquelas que tentam conciliar cargos públicos com responsabilidades familiares. Em vez de adaptar as instituições às realidades da sociedade moderna, muitos sistemas políticos continuam esperando que as mulheres se adaptem às estruturas criadas pelos homens.

Como explica Giovanna Coi, jornalista e produtora visual do Politico: “Não é que as mulheres não estejam suficientemente engajadas ou não se interessem por política; o problema é um sistema que não foi projetado para corrigir esses desequilíbrios e tornar a política um ambiente mais seguro e acolhedor”.

Yating Li argumenta que os estereótipos de gênero continuam a influenciar a trajetória política das mulheres muito antes de elas chegarem a cargos eletivos. Durante as campanhas eleitorais, as mulheres frequentemente recebem cobertura midiática diferente, lutam para obter o mesmo nível de apoio partidário e o mesmo financiamento de campanha que os homens, sendo frequentemente julgadas pelo filtro das expectativas tradicionais de gênero, em vez de pelas habilidades políticas. A crença persistente de que liderança é uma característica masculina limita as oportunidades das mulheres de ter acesso a posições de poder. Como resultado, continuam a se mover em um ambiente político onde são julgadas por critérios raramente aplicados aos seus colegas homens.

Progresso desigual e tetos de vidro

Apesar de décadas de progresso democrático, as mulheres continuam a ter uma sub-representatividade significativa nos processos de tomada de decisão política.

A União Europeia reafirmou repetidamente seu compromisso com a igualdade de gênero na representação política, e muitos partidos intensificaram os esforços para promover a participação feminina. No entanto, o progresso continua desigual nos vários países europeus.

De acordo com o Gender Equality Index (Índice de Igualdade de Gênero), o poder político ainda é a área em que a diferença de gênero é maior. Apenas a Suécia e a Finlândia têm uma pontuação superior a 90 no indicador de poder político, que mede a representação feminina entre ministros, parlamentares e membros das assembleias regionais. A França, a Áustria e a Bélgica consolidaram resultados já positivos, enquanto países como a Itália, a Estônia e Portugal registraram melhorias a partir de níveis muito mais baixos. Por outro lado, vários países que ocupam os últimos lugares no ranking tiveram pouco ou nenhum progresso.

Matthew TenBruggencate - Unsplah
Matthew TenBruggencate – Unsplah

Olhando além da Europa, torna-se evidente que a desigualdade de gênero na política continua sendo um desafio global.

Dados da Inter-Parliamentary Union e di UN Women (União Interparlamentar e da ONU Mulheres), que monitoram a representação feminina em cargos de tomada de decisão e nos parlamentos nacionais do mundo todo, apresentam um panorama menos animador. Atualmente, mulheres ocupam o cargo de chefe de Estado em apenas 28 países e representam somente 27,4% dos membros dos parlamentos nacionais.

Os dados também destacam outro padrão persistente: as mulheres são nomeadas com mais frequência para ministérios tradicionalmente associados à saúde, educação, assuntos sociais, direitos humanos ou igualdade de gênero, enquanto ministérios como defesa, finanças, relações exteriores e assuntos internos continuam sendo liderados predominantemente por homens.

As mulheres não têm interesse em política?

A representação política, no entanto, não se resume apenas a quem é eleito. Também diz respeito a quem se sente em posição de participar.

Estudos mostram constantemente que as mulheres tendem a relatar níveis mais baixos de conhecimento político do que os homens, e isso é relevante porque o conhecimento político é um dos principais fatores que impulsionam a participação política. Isso também se refletiu no Eurobarômetro pós-eleitoral de 2019, no qual as mulheres declararam com mais frequência do que os homens que não votaram porque acreditavam que não estavam suficientemente informadas sobre o Parlamento Europeu ou as eleições.

As mulheres também têm menos probabilidade do que os homens de fazer doações para campanhas eleitorais, de se associar a organizações políticas ou de entrar em contato com representantes eleitos. Os pesquisadores atribuem essas diferenças não à falta de interesse, mas ao acesso desigual aos recursos, à persistência de estereótipos de gênero e às normas sociais que continuam a desencorajar as mulheres a entrarem na vida política.

Não significa, porém, que as mulheres sejam politicamente passivas.

Ao contrário, elas frequentemente participam da política por meio de diversas formas de engajamento cívico. São mais propensas do que os homens a assinar petições, arrecadar fundos para causas políticas e praticar o chamado consumo político, optando por comprar ou recusando produtos com base em valores éticos ou políticos.

Orna - Pixabay
Orna – Pixabay

Isso sugere que as mulheres não estão desvinculadas da política, ao contrário, elas frequentemente participam por meio de formas alternativas de ações políticas que tradicionalmente receberam menos atenção do que as instituições políticas formais.

A questão, portanto, não é se as mulheres têm um lugar na política, mas por que sua representatividade igualitária é essencial para a saúde da democracia.

A sociedade precisa da igualdade de gênero não apenas porque é uma questão de justiça, mas porque promove um progresso social, econômico e político mais amplo. As evidências mostram que países com maior representatividade feminina em cargos de liderança geralmente desfrutam de instituições democráticas mais fortes e de melhores condições de vida. As mulheres no topo também têm mais probabilidade de chamar a atenção para questões há muito tempo negligenciadas, como a violência doméstica, os cuidados com a infância, a saúde e a igualdade de gênero. Apoiar as mulheres na política e incentivar sua maior participação na vida democrática é, portanto, essencial para construir uma sociedade mais inclusiva, representativa e equitativa.

As mulheres nunca careceram de ambição, talento ou compromisso necessários para liderar. Embora tenha havido progresso, os estereótipos persistentes, as barreiras estruturais e o tratamento desigual continuam a desencorajar muitas mulheres a seguir carreira política.

O futuro da democracia depende da capacidade de garantir que todas as vozes tenham o mesmo peso e a mesma oportunidade de contribuir para as decisões políticas. É hora de as instituições políticas removerem as barreiras que mantêm muitas posições fora do alcance das mulheres. Somente quando mulheres e homens puderem participar em plena igualdade de condições é que a democracia poderá realmente cumprir sua promessa de representar todos os cidadãos.