“Há um impacto real”: como transformar a vocação ambiental em uma empresa com propósito
John Mundell, ponto de referência para a Economia da Comunhão e pioneiro na descontaminação ambiental, explica como integrar fé, ecologia e negócios a fim de gerar transformações concretas na sociedade.
Desde muito jovem, o senhor demonstrou sensibilidade para as questões ambientais. Como conseguiu transformar isso em uma carreira empresarial?
Os meus ancestrais estavam entre os primeiros europeus a se estabelecerem no que hoje é Kentucky e Indiana. Na família, tínhamos grande respeito pela terra. Éramos agricultores e pecuaristas. Em 1970, aos 13 anos, participei do primeiro Dia da Terra, recolhendo lixo nas ruas. Ali entendi o impacto que poderíamos ter ao colaborarmos. Na universidade, eu me apaixonei por estudar a Terra, em particular a Geologia. Tendo inclinação também para matemática, descobri a engenharia geológica, que ensina como projetar barragens e infraestrutura rodoviária, como prevenir deslizamentos de terra. Após me formar em Engenharia Civil, comecei a trabalhar para uma empresa que estava dando seus primeiros passos no combate à poluição ambiental. Tornei-me o primeiro engenheiro a lidar com a recuperação de locais contaminados por produtos químicos. Em mais de 40 anos de carreira, trabalhei nos Estados Unidos e em várias partes do mundo em investigações e recuperação em milhares de locais.
O senhor é diretor global da Laudato Si’ Action Platform (LSAP – Plataforma de Iniciativa Laudato Sì), além de fundador e presidente da consultoria ambiental Mundell & Associates. Que características possui e que papel desempenha na proteção do meio ambiente?
Mundell & Associates é uma empresa de consultoria que atua na área de Ciências da Terra e do Meio Ambiente, especializada na avaliação e recuperação de locais contaminados (solo e água). Transformamos áreas industriais degradadas, prejudicadas por décadas de atividade produtiva, em terrenos reurbanizados prontos para um novo uso. Somos uma equipe de cientistas e engenheiros a quem cidades e multinacionais recorrem para enfrentar os desafios ambientais mais complexos: território, estruturas industriais e ar. Também nos dedicamos a identificar novos recursos de água subterrânea, promovendo a conscientização sobre a importância de proteger a qualidade da água. Quanto às mudanças climáticas, lidamos com inundações, aumento do nível do mar e variações na demanda hídrica decorrentes do aumento das temperaturas.
Desde 1995, a sua empresa faz parte da Economia da Comunhão. Como essa relação começou e o que o motiva a continuar acreditando nisso?
Nosso vínculo com a EdC tem suas raízes no encontro que ocorreu em 1978 entre mim, minha esposa Julie e o Movimento dos Focolares. Ficamos impressionados com as pessoas que conhecemos e com o desejo delas de colocar o Evangelho em prática. Nos vinte anos seguintes, o nosso envolvimento foi crescendo. Criamos nossos filhos segundo essa espiritualidade. Em 1991, quando soubemos que Chiara Lubich havia criado no Brasil algo “novo” para ajudar a tornar a economia mais justa e humana – a Economia da Comunhão –, ficamos fascinados. Eu era diretor técnico em uma empresa de consultoria que ajudei a desenvolver bastante. A perspectiva de viver a aventura de uma empresa como ferramenta para ajudar a resolver os problemas da pobreza e da desigualdade era um sonho que se tornava realidade.
Hoje?
Após 31 anos da EdC, estou ainda mais convicto de sua capacidade de contribuir para transformar a sociedade em um mundo mais unido.
Por quê?
Porque vi os impactos positivos em nossa comunidade local. Porque representa um ponto de partida seja contra a pobreza, seja para criar relacionamentos de confiança globalmente. Não é teoria, há um impacto real em centenas de milhares de vidas ao redor do mundo que inspira transformações nos relacionamentos, contra o isolamento e a solidão.
Qual é a relação entre Laudato si’ e a EdC?
Tudo gira em torno do que o papa Francisco definiu como “ecologia integral”, segundo a qual “estamos todos conectados”. Não podemos abordar os problemas ambientais como questões isoladas, pois eles estão ligados a questões sociais, religiosas e econômicas. Trinta anos atrás, era fácil perceber essas conexões: a minha empresa, que fazia parte da Economia da Comunhão, lidava com questões ambientais e contribuía para combater a pobreza e os problemas sociais. Com o tempo, ficou claro que todas as empresas da Economia da Comunhão têm uma responsabilidade para com o planeta. Acreditar na “comunhão” significa entender que não se trata simplesmente de gerar lucros a serem destinados aos pobres, mas de construir relações pessoais e profundas com os funcionários, com os clientes e com a comunidade local e global. Significa pensar no impacto que as nossas ações terão sobre as futuras gerações e no ideal de unidade que cria milhares de oportunidades para uma sociedade em que “ninguém passe necessidade”.

Até que ponto essa Encíclica influenciou o trabalho de vocês?
A Laudato si’ me permitiu expressar o que eu estava vivenciando: o compromisso com o planeta, que já era parte integrante da minha fé. E me fez entender que isso não podia se limitar a palavras ou pensamentos, mas que eram necessárias ações concretas em favor do planeta. Viver o Evangelho a cada momento, ao lado das pessoas que Deus coloca ao nosso lado, constitui a nossa vocação como cristãos. Pode-se até dizer que levamos são Francisco para fora dos jardins: para as ruas, em contato com aqueles que estão em necessidade.
Qual é o nível de conscientização que você observa, hoje, em relação à necessidade de modelos mais sustentáveis?
A conscientização está crescendo, lentamente, mas de forma inexorável, embora muitas vezes eu sinta frustração com a lentidão do processo. O planeta está nos lembrando disso por meio de enchentes, secas e incêndios. No meu cargo anterior como diretor global da Plataforma de Iniciativa Laudato Si’ (LSAP), do Vaticano, vi um número crescente de famílias, escolas, universidades, paróquias, dioceses, congregações religiosas e empresas entenderem que a sustentabilidade é um elemento fundamental. Desde o lançamento da LSAP, em novembro de 2021, mais de 13.500 organizações, famílias e indivíduos se comprometeram a criar planos concretos inspirados na Laudato si’. Estimamos que esse compromisso envolva cerca de 170 milhões de católicos no mundo todo, de um total de cerca de 1,4 bilhão. Ainda não é suficiente, mas é um passo significativo em relação à situação inicial.
Na sua empresa, vocês introduziram o “Dado Empresarial”, inspirado no “Dado do Amor” de Chiara Lubich, para explicar os valores da EdC aos colaboradores. Do que se trata?
Depois de comemorarmos os vinte anos da EdC no Brasil, percebemos que ela estava ampliando o seu raio de ação para além do Movimento dos Focolares. Cada vez mais pessoas perguntavam: “O que é uma empresa da EdC e como ela funciona?”. Até mesmo os nossos colaboradores – muitos dos quais não participam do Movimento – faziam perguntas sobre a EdC e sobre como devemos nos relacionar com clientes, comunidades e concorrentes. “O que nos torna únicos e diferentes dos outros?” Eu me inspirei no “Dado do Amor”, de Chiara Lubich, que é um lembrete do nosso modo de viver. Com alguns jovens estagiários da EdC, identificamos seis mensagens a serem colocadas nas faces do dado, que transmitem os valores da EdC e oferecem orientações sobre como se comportar no ambiente de trabalho.
Quais são?
“Construir relacionamentos todos os dias!” (Amar a todos); “Ser o primeiro a ajudar os outros!” (Amar primeiro); “Apoiar com gestos, não só com palavras!” (Amar concretamente); “Compartilhar habilidades, tempo e a si mesmo!” (Compartilhar alegrias e tristezas uns dos outros); “Valorizar cada pessoa e cada ideia!” (Amar o outro como a si mesmo); e “Até os concorrentes podem ser amigos!” (Amar o inimigo). Em pouco tempo, o “Dado Empresarial” foi traduzido para oito idiomas, chegou ao Facebook e passou a fazer parte do dia a dia das nossas empresas. Foi também o período em que, após vinte anos da EdC, começamos a colocar no papel o que significa ser uma empresa da Economia da Comunhão: a missão, a visão, reunindo inúmeros exemplos práticos de seus ideais traduzidos em ação.

Vocês ofereceram apoio financeiro ao programa “Seed Funding” (financiamento inicial) da ONG New Humanity International, no âmbito do qual 15 projetos foram selecionados. Quais foram as suas impressões?
Ficamos encantados com a paixão e as ideias expressas nas candidaturas recebidas de todas as partes do mundo, e com o fato de que foram os jovens que promoveram essas ideias. Sabíamos que, mesmo que fossem projetos “pequenos”, a sua conclusão representaria um passo importante, tanto para os jovens envolvidos quanto para o próprio Movimento. Às vezes, um pequeno “empurrão” é suficiente para que grandes coisas possam surgir! Os projetos – da África, América do Sul, Oriente Médio, Índia/Paquistão e Filipinas – abrangeram diversas áreas: reciclagem em nível comunitário, plantio de árvores e agricultura orgânica, sempre sob a orientação dos jovens. Ficamos tão satisfeitos com essas iniciativas que decidimos destinar um financiamento adicional para o próximo ano.
Como é possível, hoje, conciliar economia, pessoas e meio ambiente? Por que é importante lutar para colocar as pessoas de volta no centro, em uma época em que elas muitas vezes são relegadas à margem por grandes interesses econômicos?
Essa questão me toca profundamente. Sou dos Estados Unidos, que estão passando por um período particularmente complexo, com o governo tentando desmantelar as leis ambientais fundamentais, reduzindo a ajuda para o resto do mundo. Muitos de nós estamos trabalhando para aumentar a conscientização e incentivar as pessoas a votarem na próxima eleição. É um compromisso crucial, porque o mundo já não é mais aquele “lugar pequeno” onde podemos nos iludir pensando que estamos agindo de forma isolada. “Estamos todos conectados!”, justamente. A luta contra as grandes multinacionais e os bilionários que as administram tem por objetivo fundamental garantir a proteção do bem comum e garantir que até “os últimos” possam prosperar. Acredito firmemente que a chave está em nossas mãos.