“E você, o que acha?”: é título do workshop de diálogo na Espanha que desafia a polarização
Em tempos de polarização, uma iniciativa da Fundação Igino Giordani colocou à prova, por meio de um ciclo de 4 reuniões, o diálogo, como ferramenta para entender o outro sem tentar impor uma verdade.
O dicionário define diálogo como uma conversa entre duas ou mais pessoas que, alternadamente, expressam as próprias ideias ou os próprios sentimentos. É uma definição válida para nos orientar quanto ao seu significado, mas, por si só, é muito sucinta.
Falar sobre diálogo também significa falar sobre uma ferramenta com enorme potencial que, como qualquer ferramenta, trará resultados dependendo da forma como for utilizada.
A Fundación Igino Giordani, na Espanha, realizou um workshop para explorar as consequências de criar um espaço dedicado exclusivamente a reunir pessoas e praticar o diálogo.
Eis o que é “E você, o que acha?”, o ciclo de diálogos da Fundação Igino Giordani
“E você, o que acha?” é um projeto formativo da Fundação Igino Giordani que tem buscado refletir sobre algumas questões importantes e delicadas da sociedade atual, tornando o diálogo um verdadeiro instrumento para a transformação pessoal e social. Trata-se de um ciclo de quatro reuniões online, organizadas em torno de diversos temas, com uma metodologia e algumas regras de participação.

“Parecia-nos que hoje a sociedade estivesse muito polarizada, que houvesse muitos pontos de vista extremos, por exemplo, aqui na Espanha, à direita ou à esquerda, e que parecesse quase impossível conversar. Basta abordar um tema, expressar a própria opinião que imediatamente surge um conflito: não dá para conversar”, diz Susana, uma das organizadoras do “E você, o que você acha?”.
O ponto de partida do ciclo foi a figura de Igino Giordani (1894-1980), o italiano que deu vida e nome à fundação e que lutou pelos grandes ideais humanos do século 20: paz, liberdade e justiça social, como ressalta a organização. Ele foi um deputado pouco ortodoxo do Parlamento italiano, “testemunha de uma cultura política que valoriza a coerência, o diálogo e construção da paz”, marcado pela experiência da frente de batalha na Primeira Guerra Mundial. Foi também jornalista, escritor, ecumenista e bibliotecário. Além disso, foi cofundador do Movimento dos Focolares.
“O que desejávamos alcançar era dialogar sem discutir, simplesmente pelo desejo de entender a posição do outro e expressar a própria com tranquilidade, sem atacar ninguém”, diz Susana. “O objetivo é expressar e compreender. Nunca é encontrar uma solução ou determinar o que é certo. Ou seja, não estamos procurando o certo ou o errado, mas os pontos de vista”, acrescenta.
Os 4 ciclos foram divididos nos seguintes temas:
- O que Igino Giordani nos diz diante deste nosso mundo em guerra?
- Polarização e cultura do diálogo. Podemos pensar diferente sem discutir?
- Imigração: é possível abordar esse tema sem nos dividirmos?
- Paz: utopia ou tarefa possível?
Tempo, moderação e diretrizes: o esquema de trabalho
Para implementar esses elementos, os organizadores estabeleceram algumas diretrizes. Em primeiro lugar, eles consideraram que a criação de pequenos grupos, em vez de grupos numerosos, seria mais propício ao intercâmbio. Na verdade, quando o workshop terminou, eles observaram que era evidente que as pessoas conversavam mais livremente quando estavam em poucas do que quando estavam em muitas. Quanto maior o grupo, maior é a tendência de apenas escutar, sem intervir.

Em seguida, faziam perguntas provocativas que preparavam o terreno para debater alguns temas, sempre com um moderador para conduzir a conversa.
E, um ponto fundamental, o tempo. Cada participante dispunha de um tempo determinado para falar, controlado por um cronômetro. Durante esse momento, apenas a pessoa com a palavra podia falar, os demais deviam escutar. Quando o tempo acabava, os outros podiam fazer perguntas; não para debater, mas para se certificarem de que haviam compreendido a posição expressa pelo participante.
Sempre ficou claro: a posição de cada pessoa estava ligada à sua experiência, à sua personalidade, à sua história, à sua cultura, ao país de origem. Logo: nada deveria ser interpretado como algo pessoal ou considerado definitivo.
O workshop também foi baseado nas diretrizes para o diálogo, propostas pela italiana Lucia Fronza, ex-presidente do Movimento Político pela Unidade (MPPU) Internacional (um dos parceiros do United World Project).
A abordagem de Lucia Fronza tem como premissa a predisposição pessoal para a aproximação. “Vamos imaginar” – explica Susana – “que, se eu estiver em um lugar e o outro estiver à minha frente, e for preciso dar alguns passos para nos encontrarmos no meio do caminho, eu devo estar disposta a dar todos os passos necessários para chegar ao outro. O ideal é que cada um se mova e nos encontremos no centro; mas se a outra pessoa não se move, a ideia é que seja eu a me mova o quanto for necessário para chegar ao outro, para que esse diálogo, esse encontro, aconteça”.
Uma vez concluída a troca e depois que cada participante tivesse se expressado, a ideia era descobrir se, em tudo o que havia sido dito, existiam pontos em comum. Sempre com abertura para a possibilidade de que não houvesse nenhum e, nesse caso, buscar uma resposta para as perguntas: “Por que divergimos?”, “Por que discordamos sobre isso?”.
Susana explica o processo da seguinte maneira: “É uma forma de conversar colocando as cartas na mesa: não vamos cozinhar nada, mas vamos ver quais ingredientes temos. O objetivo é cozinhar algo, mas talvez não cozinhemos nada; simplesmente veremos quais ingredientes temos. A ideia é que sempre, ou quase sempre, seja possível encontrar algo em comum”.
Dialogar é assumir os riscos
Nesta primeira edição, o ciclo “E você, o que acha?” aconteceu exclusivamente online. Os seus organizadores sabem que, no futuro, poder realizá-lo presencialmente contribuiria significativamente para a experiência.
De todo modo, o espaço da Fundação Igino Giordani transformou-se, durante algumas semanas, em um espaço fora da zona de conforto. Porque dialogar, ousar dialogar, ousar habitar esse campo de discussão (ou seja, esse campo de — segundo o dicionário — análise ou confronto de resultados, à luz de outros existentes ou possíveis) implicar assumir os riscos.
Susana diz: “Assumir esse risco de não saber o que pode acontecer. Aquilo que a outra pessoa me diz deve me tocar de alguma forma, mesmo que seja uma opinião contrária à minha. Preciso tentar entender o que o outro quer transmitir com essa opinião. Por que motivo o outro pensa como pensa”.